Celina notou, de primeira, quando o homem alto, de cabelos dourados e olhos acinzentados adentrou no botequim. Elegantemente, ele sentou-se à mesa mais reservada, bem aos fundos do boteco, onde uma luz, branca, já fraca, piscava a caminho do fim. O garçom, claramente, deixou de servir os clientes que chegaram antes, para levar, prontamente, uma garrafa de uísque ao homem. Ela supôs que o homem poderia ser um cliente antigo, por isso o empenho do garçom em servi-lo.
Mesmo ao lado do marido, Celina não conseguia tirar os olhos do homem, fitava cada movimento que ele fazia. O garçom desperdiçou o uísque no copo, sem gelo, do homem e ela observou que, mesmo olhando com um desejo ardente para o líquido, ele não encostava as mãos no copo. Os olhares dela foram, brevemente, interrompidos quando o marido deu-lhe um solavanco.
- O que cê tá olhando? – Perguntou Gilson, agarrando-a com força pelo braço.
- Nada. – Disse, ainda olhando, de soslaio, o homem.
Era a segunda noite em que saiam juntos e Gilson havia apostado naquela relação, mas naquele momento sentiu tudo se perder, novamente, no ar. Sem paciência para reconciliações, levantou, retirou algumas notas da carteira, jogou-as na mesa e se despediu apenas com um mero adeus, Celina nem o respondeu, aliás, nem viu quando o recém caso ultrapassou as portas do bar e sumiu na noite. Continuava com os olhos submersos no fundo do bar, engatados nos traços perfeitos daquele homem.
Um vento traiçoeiro levou as notas, deixadas por Gilson, para o chão imundo do bar, Celina nem ligou, pois, naquele instante, o distinto homem, a convidava a mesa, mesmo sem dizer uma palavra sequer ou compor gesto algum, Celina sentiu que era a companhia dela que ele invocava. Levantou-se e, adestradamente, caminhou até a mesa dos fundos.
Ele fez as honras e a cadeira, inexplicavelmente, se arrastou, pra trás, sem a ajuda de ninguém, Celina não se importou com o estranho fenômeno e sentou-se com um sorriso canalha na cara. O homem a serviu e ela virou a metade do copo, logo, ele, preencheu o espaço vazio, do copo, com outra dose.
- Você ainda não bebeu nem um gole do seu uísque.
- Só o cheiro me satisfaz, lembro do meu glorioso e longínquo passado.
- Então, se der um gole, você embarcará inteiramente no seu passado, já tentou?
- Não, não. Prefiro sangue.
- Sangue? Também adoro comida ao molho pardo, uma delícia! – Enriqueceu ela, virando completamente o copo. – Uma galinha ao molho pardo combina com uísque assim como Tom combina com Jobim.
Ele riu.
- Toma uma dose. – Insistiu ela.
Ele negou com a cabeça.
- Garçom. – Berrou ela, demonstrando embriaguez. – Trás uma garrafa cheia pra cá.
Depois da garrafa posta na mesa, ela encheu o copo do homem e, novamente, persistiu, que ele bebesse.
- Não posso.
- Por quê?
- Sou um vampiro.
Ela danou-se a rir desesperadamente.
- É sério, agora, por exemplo, através da indução, vou fazer você derrubar o copo de uísque na sua blusa.
Ela agachou de tanto rir.
- Desse jeito é outro líquido que sairá no meio das minhas pernas. Vou ao banheiro e já volto.
O dito vampiro ficou atordoado, não entendeu o porquê da indução não funcionar com aquela mulher. Tinha feito o ato com o namorado dela e havia funcionado perfeitamente, pois ele, sem pestanejar, sumiu no mapa. Os pensamentos dele foram golpeados quando ela, ao se sentar-se à mesa, derrubou o copo com uísque inteiro no colo dele.
Ela tornou a rir.
- Acho que você induziu erradamente. – Ironizou ela.
- Nunca brinque com um vampiro. Posso te comer viva. - Retrucou antes de colocar os grandes caninos pra fora.
- É meu querido, pode extrair esses caninos de leite, pois só menstruo no início do mês. Aqui é igual a dia de pagamento, deu dia 5, ela cai. – Disse a gargalhadas.
- Pare, eu ordeno.
- Você passa pó de arroz? Metrossexual? Que corte de cabelo é esse? Pica atrás e arrepia na frente?
Ele não aguentou, pegou a garrafa e a virou no gargalo. Depois disso, se deram, otimamente bem, até, um pouco antes, do amanhecer.

