26.1.10

Semeando chifres

O céu, negro, estava banhado de estrelas naquela sexta-feira. Os ponteiros do relógio, em forma de maçã verde, marcavam nove e quarenta. Clarissa, de camisola, assistia à televisão e pintava as unhas dos pés com o esmalte na cor rosa-chiclete. Uma revista de moda feminina mantinha-se aberta sobre a cama. De alguma forma, ela conseguia prestar a atenção no filme legendado e ler uma matéria sobre luzes no cabelo. Na rádio tocava às dez mais do dia. De repente, energicamente, pegou o celular e caçou o número de Eduardo, o garoto que ela estava afim.

Eduardo, de cueca samba-canção, jogava videogame quando o telefone vibrou em cima do criado-mudo. Olhou no visor, suou frio e pensou em não atender, mas era a garota que ele estava gostando. Respirou fundo e atendeu.

- Alô?

- Eduardo?

- Oi Clarissa, tudo bem?

- Tudo ótimo, e com você?

- Um pouco bêbado. – Risos.

- Bêbado? Já? – Risos.

- Uma vodka antes de sair não faz mal a ninguém.

- Vai sair? Pra onde?

- Dar umas voltas na Lapa, sem compromisso. E você, ficará em casa em plena sexta-feira?

Emudeceu.

- Nada, também darei umas voltinhas, mas... Eduardo, eu tenho que desligar, o interfone está tocando, deve ser minhas amigas. Beijos

- Tudo bem, beijos e até.

Desligou.

- Mãinhêêê! Traz meu leite? – Resmungou Eduardo com voz de coitado.

- Vem buscar. – Retrucaram lá da cozinha.

- Ah, Mãe. Você disse que não posso sair do quarto.

- Você não pode é sair de casa. Uma semana sem pisar na rua, do colégio pra casa. Está com sorte de jogar videogame. Não merecia.

- Ah mãe!

- Nem a e nem b, Carlos Eduardo.

Clarissa, com o telefone espremido entre o ombro e a orelha, remexia as roupas do armário enquanto falava com a amiga Fernanda.

- Não importa por que resolvi ir de última hora, me diga logo qual roupa você vai. – Dizia Clarissa jogando várias roupas em cima da cama. - É melhor ir de rasteirinha, não acha? Vou me acabar hoje.

- Explica o motivo, pois você me disse, toda apaixonadinha, que não sairia hoje. – Insistiu a amiga Fernanda.

- É que o corno acendeu o estopim.

24.1.10

Feitio

Quando chegava a casa, ela pendurava a bolsa na cadeira, retirava as sandálias sem a ajuda das mãos, acendia as cinco velas do candelabro e sentava na banqueta do piano. Como todos os dias, os ágeis e flexíveis dedos exploravam todo o piano soando uma bossa nova. Fechava os olhos e se deixava levar. Sentia recarregar as forças e era, sempre, o momento mais perfeito do dia. Na ponta dos pés, ela ia até ao bar. Depois de três cubos de gelo, caprichava o copo com uísque, deixava-o descer pela garganta e rebuscava o paladar a senti-lo mais. Abriu a cigarrilha com as mãos de unhas impecavelmente feitas, acendeu o cigarro e tragou-o com tanto prazer que, como ao piano, deixou os olhos fecharem.
Com o cigarro preso entre os fartos lábios, ela corria os dedos pelo teclado, levando, lentamente, um bolero qualquer. Entornou ainda mais, da garrafa, no copo, prendeu os cabelos e colocou o vinil de Nelson Gonçalves. Arriscou passos, tendo, como parceiro, o copo com uísque. Como, tinha tremoços na geladeira, serviu-se numa pequena bandeja, precisava de sal. Aumentou o som e o tamanho da dose no copo. Ligou o gás do chuveiro e se despiu. Apenas de calcinha, se deixou ao vício e acendeu outro cigarro. Dançou a música inteira e, quando caminhava até o banheiro, o celular apitou duas vezes. Era ele, dizendo que tinha dois convites para uma boate. Ela desligou o celular, o gás e aumentou, ainda mais, o som.

22.1.10

Pieno d’amore

Foi através do sorriso,
E, ainda, nele estou.
Depois, evidentemente, do resto.
E, ainda, nele estou.

Guardei cada traço,
E, ainda, nele estou.
Em detalhes únicos,
E, ainda, neles estou.

E apoiei-me nos olhos,
E, ainda, neles estou.
Gloriosamente belos.
E, ainda, neles estarei.

21.1.10

O resgate do goleiro Silas

As tábuas corridas equilibradas numa estrutura de ferro, soldadas pelo lanterneiro do bairro, já se encontravam empenadas com tanta gente acomodada. Não havia espaço para mais ninguém. Era um domingo e o sol rachava com força total.
Em campo, a rivalidade dos times: Rua de Cima contra Esquina do Vilmar. A grande e esperada final. A grama era escassa, misturada com capim e arranha-gatos assassinos. Além dos adversários, os jogadores eram obrigados a driblar também as bostas de vaca espalhadas por todo o gramado. Os uniformes, dos dois times, eram surrados e tinham os números costurados nas costas, uns já se encontravam até dependurados. Chuteiras, tênis e chapas de papelão servindo de caneleira. Alguns jogadores se aqueciam, esticando as pernas de várias maneiras e outros viravam, freneticamente, copos e mais copos de cerveja.

Do lado esquerdo do campo, após a disputa da moeda, o time do técnico Vilmar, inteiramente reunido, discutia as últimas táticas. Do outro lado do campo, o lado da sombra, o time do técnico Jorjão, desfalcado, esperava impacientemente o goleiro Silas.

- Como assim ele não vem? – Gritou o técnico Jorjão.

- Problemas com a patroa dele. – Indagou Carlinhos, o capitão do time. – Acho que terminaram.

Jorjão ficou vermelho, parecia um tomate modificado geneticamente.

- Hoje é a grande final, temos que buscá-lo. Carlinhos, você é o capitão, vá resgatá-lo.

O capitão Carlinhos escolheu alguns companheiros e partiram de chuteiras no pé para a casa do goleiro. Logo que atravessaram o portão do pequeno estádio, Jorjão explicou ao juiz o motivo do atraso e a notícia logo se espalhou por todo o campo, desde o gandula até o último torcedor.

Carlinhos socou a porta da casa de Silas.

- Quem incomoda? – Respondeu uma voz moribunda lá de dentro.

- Silas? É o Carlinhos.

- Não posso falar agora.

- Precisamos conversar.

Depois de implorarem bastante, Silas abriu a porta. A cara de choro era visível na faceta de traços grossos de Silas. Era um sujeito grande e forte, mas possuía um coração de criança e era um dos poucos que usava da boa educação naquela área.

- Esqueceu do jogo, Silas? – Perguntou Juninho, o cabeça de área.

- Minha mulher me largou, fugiu com outro, eu nunca desconfiei de nada. – Respondeu desabando em lágrimas.

- Você é um homem bom, logo aparece outra mulher.

- O problema é a fama.

- Que fama cara?

- A fama de corno no bairro, todo mundo ficará sabendo, se já não sabem.

- Vamos logo pro jogo.

- Não!

- Você deve ir e mostrar que além de corno você é um ótimo goleiro. – Intrometeu Paulo, o xucro zagueiro.

- Que isso Paulo? Corno?

- Não foi isso que ele quis dizer. – Ajeitou Carlinhos. – Disse que o povo esquecerá disso se você defender todas as bolas da partida. Somente nós sabemos disso e ninguém contará, não é verdade gente?

Todos concordaram balançando a cabeça.


Depois de um copo de água com açúcar e muito sentimentalismo, Silas aceitou, pegou as luvas e acompanhou os amigos de casa até o campo, com o peito cheio de garra. No caminho as pessoas da rua se entreolhavam trocando olhares irônicos. Assim que Silas colocou os pés no gramado a algazarra da torcida cessou, todos os olhares eram pra ele. Carlinhos fez de tudo para que ele não percebesse, mas a torcida adversária iniciou um coro:

- Corno, Corno, Corno...

Carlinhos, rapidamente, chegou perto do goleiro e perguntou:

- Está escutando o grito da torcida?

Silas tombou a cabeça pro lado, com o intuito de escutar melhor e Carlinhos engatou:

- O calor é tanto, que estão gritando “forno”. Forno, forno, forno...

Silas sorriu, cantarolou “forno” e com o peito ainda cheio, se posicionou entre as traves para o início da partida, pois a esperança de melhorar a fama corria nas veias.

No início da partida, logo no primeiro lance, o meio campista do time de Valmir lançou a bola nos pés do lateral esquerdo, que, de peito de pé, enfiou a bola, certeira, na cabeça do atacante. Numa cabeçada perfeita, o número nove, jogou a bola no canto direito do gol, obrigando Silas a se esticar numa ponte, agarrando a pelota com as duas mãos. A torcida do Rua de Cima delirou, arregaçando aos berros, num coro de copa do mundo.

Silas rapidamente chutou a bola para frente e, num lance perfeito, Carlinhos lançou a bola nos pés do atacante, que logo, jogou a bola de um lado do zagueiro e pegou do outro, finalizando, perfeitamente, o famoso drible da vaca, chutando, a seguir, de três dedos, a bola, no ângulo direito do goleiro, fazendo um gol de placa.

A partida recomeçou com os times disputando heroicamente a bola no meio de campo. Os ataques depois do gol, em ambas as áreas, eram pouco frequentes. Os goleiros trabalhavam o básico e mantiveram o resultado empatado até o término da primeira etapa.

Após os quinze minutos no vestiário, estudando novas táticas, retornaram ao campo e o juiz, pontualmente, apitou o início do segundo tempo. A partida começou pesada, com muitas faltas, empurrões e cartões amarelos. Silas defendia magicamente todas as bolas chutadas pelos atacantes da Esquina do Vilmar, mas o clima ficou tenso aos quarenta e quatro minutos, quando, numa bola enfiada, o atacante, do Esquina do Valmir, ficou cara a cara com Silas. O atacante puxou pra esquerda, ajeitou a bola e quando armou para chutar foi travado bruscamente pelo zagueiro Paulo. Pênalti!

Ninguém tinha dúvidas, a penalidade era clara. Depois de muita confusão e expulsão do zagueiro, o batedor ajeitou a bola na marca e se afastou, quase chegando ao circulo do meio de campo.

Silas tentava manter a concentração na bola, mas ela se dissipava quando recordava da esposa. Lembrou da fama, do bairro e dos apelidos. Forçou a mente, voltou a pensar nos amigos e em ser o melhor goleiro. Abriu as mãos, após fazer a cruz, e ajeitou-se no meio do gol.

O juiz apitou, o batedor partiu como uma máquina de trem ao encontro da bola e, ignorantemente, a chutou, de bico. A bola espatifou na testa de Silas, saindo depois para fora de campo. O juiz apitou. Término da partida.

O goleiro foi carregado pelos outros jogadores, a torcida pulava e gritava sem parar. Silas foi ovacionado, se esqueceu da mulher, pensava somente na suada vitória e do heroísmo em campo. Até Valmir, o técnico adversário, falar ao pé do ouvido de Silas:

- Com o chifre, até eu catava!

19.1.10

Que parto que pariu!

- Estourou! – Gritou uma mulher barriguda, sentada, desleixadamente, na poltrona da sala.

O namorado deixou o prato espatifar no chão da cozinha e saiu correndo. Passou direto pela sala, procurou-a no quarto, banheiro, quintal e, desesperado, gritou:

- Cadê você?

- Aqui na sala, animal.

Assim que chegou perto, Eliana, a namorada, notou a estranha respiração de Carlos.

- Quem deve fazer essa respiração sou eu e não você.

Ele nem deu ouvidos. Correu pro quarto bebê, inteiramente decorado, e tratou de fazer a mala. Pegou fralda, vestido, pente, chupeta e mamadeira, mas foi cortado por outro grito.

- Estourou novamente? – Dessa vez ele, desesperado, também gritou e apareceu esbaforido na sala.

- Está achando que são fogos de artifícios? – Rebateu a mulher, já sem paciência.

- Já volto, estou arrumando a mala. – Acrescentou ele, voltando, novamente, pro quarto.

- Ô mala! – Berrou ela. – A mala já está pronta há séculos. Pega o carro e vamos embora. Eu aguento tranquilamente essa dor, o difícil é aguentar você. Anda rápido.

O carro, praticamente zero, não pegava, ou Carlos, o quase-pai, não conseguia liga-lo de tanto nervosismo. Chamaram um táxi. Ele retirou a mala do bagageiro do carro, colocou a mala no táxi, entrou e pediu para o taxista seguir para o hospital. Eliana berrou, o taxista deu ré, ele saiu, abriu a porta traseira e deixou, agora, que ela entrasse.

A barriguda, logo que chegou ao hospital, foi levada para os preparativos da operação e Carlos, quase relaxado, aproveitou para realizar algumas ligações. Suava frio quando uma enfermeira se aproximou e lhe entregou os pertences da namorada. Depois de avisar aos amigos e parentes, ele se sentou numa poltrona, procurando relaxar totalmente, e ficou brincando com uma aliança que estava entre os pertences.

Nervoso, pois presenciaria todo o parto, ele enfiava, incessantemente, a aliança no dedinho mindinho, passava-a de uma mão a outra e a jogava pra cima, até que percebeu algo escrito na parte interna da aliança. Com dificuldade, ele leu. Havia um nome de outro homem escrito.

Carlos sentiu um forte aperto no peito, inicialmente, um ciúme doentio tomou-o por dentro, tentou lembrar quem seria Guilherme, - Um ex-namorado? - mas nada surgia em mente. O rosto que estava pálido até certo momento, tornou-se rubro. Virou três copos de água gelada, raciocinou bem e, esfriando a cabeça, chegou à conclusão que deixaria as perguntas pra mais tarde, esperaria uns trinta dias, até o neném deixar de ser recém-nascido, e depois tiraria satisfações com a namorada. Decidido, ele colocou a máscara e entrou na sala.

Eliana estava estirada na maca, com as pernas arreganhadas e tendo grandes contrações. Quando forçava, com a ajuda dos médicos, o rebento para fora, notou a presença do namorado, sentiu-se segura, mas a felicidade logo se foi quando percebeu a cara estranha de Carlos. Viu que ele olhava, de momento em momento, para as mãos. Míope, ela forçou bastante a vista para compreender que aquele objeto, dourado e brilhante, na mão do namorado, tratava-se de uma aliança.

Ela não acreditou que Carlos a pediria em casamento em pleno parto. Teve vontade de se levantar e esbofetear a cara dele, só pra ver se um pouco de noção entrava na cabeça do namorado. Tentou dizer algo, mas não saia nada entre os dentes travados pela dor, somente carregados e fortes urros escapavam. Ele notou a raiva que ela o fitava e ficou estarrecido na porta, não saía e nem entrava. Quando, novamente uma força o animou a entrar, Carlos foi puxado pela enfermeira para a ante-sala.

- Desculpe-me senhor. – Disse a enfermeira um pouco constrangida. – Mas aquelas coisas que lhe entreguei são de outra paciente.

17.1.10

Furacão

Era verão, um sábado. Acordou com o barulho do caminhão de lixo e, quase simultaneamente, bateram na porta, olhou no relógio, eram dez e meia, a ressaca reinava. Assim que a abriu, Janete entrou esbaforida com várias sacolas de compras penduradas no ombro. João nem sequer prestou ajuda, foi para a cozinha, colocou água pra ferver e acendeu um cigarro. Janete não parava de falar lá na sala, criou coragem e voltou.

- Fumando de barriga vazia? – Disse ela, sem querer uma resposta.

João não respondeu e sentou-se no único lugar que não havia bolsas apoiadas.

- Fiz umas comprinhas.

- Comprinhas?

- É. Comprei umas coisas pra você e, também, pra mim. Óbvio.

- Pra mim?

- Isso. Você está precisando de camisas novas, as suas estão muito velhas.

- Olha essa aqui, ô, linda. – Disse Janete, animadíssima.

- Rosa?

- Isto não é rosa, bobo, é lilás.

- Lilás?

- Ficará ótima com a sua calça xadrez.

- Eu não tenho calça xadrez.

- Agora tem. – Rebateu ela enfiando a mão numa das sacolas.

- Janete, meu estilo não é esse. Isso não combina comigo.

- E você alguma vez na vida já teve algum estilo? Pega isso e experimenta.

- Vou acordar primeiro.

- Anda logo, já estou perdendo a paciência.

- Então passe o café pra mim. – Ordenou antes de ir para o quarto.

Voltou vestido com a calça xadrez e a blusa lilás.

- Está um gatinho, mas você tem que cortar esse cabelo, está sem corte. Horrível.

Havia duas semanas que João havia cortado o cabelo, mas não quis se aprofundar no assunto. Pegou uma xícara, desperdiçou o café nela e, no primeiro gole, engasgou.

- Você não adoçou?

- João Guilherme, açúcar faz mal, muito mal. Coloque o adoçante.

- Aqui em casa não tem adoçante.

- Tem sim, na segunda porta do armário.

Foi até a cozinha e colocou três colheres cheias de açúcar, sem que ela percebesse. Quando retornou a sala, foi surpreendido por uma espirrada de perfume, levou um susto.

- Olha que delícia esse cheiro, comprei pra você. É feminino, mas eu adoro.

- Feminino?

- Isso mesmo, não tem problema algum. O meu, você já disse que gosta muito do meu, não é? Então, o meu é masculino.

- Eu gosto de perfume em você, não em mim.

- Agora... – Começou ela com as mãos pra trás e um sorriso imenso na face. – Tenho uma surpresa pra você.

- Outra?

- Feche os olhos.

- Era tudo que eu queria. Fechar meus olhos até as duas da tarde.

- Pode abrir.

- Que chapéu é esse?

- Gostou? Não é chapéu, é boina.

- Não, não combinou com você.

- Também não é pra mim idiota, é pra você.

- Pra mim? – Perguntou abismado.

- Experimenta!

- Não.

Ela o olhou de cara feia. Ele obedeceu.

- Ficou lindo, me dá um beijo agora. – Beijaram-se. – Amor, eu tenho que ir ao salão fazer as unhas. Vá cortar seu cabelo e tome aqui o seu cartão de crédito.

- Meu cartão?

Janete nem respondeu, deixou apenas duas das sacolas e levou todo o resto.

15.1.10

A moça no ponto

Sinto-me tão passageiro,
Quando eu a encontro,
Minha paixão errônea,
Do ponto de ônibus.

Diversas moças espalhadas,
Solteiras e encaminhadas.
E nada me tira a vista,
Da minha linda amada.

Não sei como se chama,
Nem o que ela faz.
Mas vejo a chama,
Que media aquele olhar.

13.1.10

Apaixonando

Passava a vida a se apaixonar. Apaixonou-se pela velha cama de solteiro da tia e, de tanto insistir em comprar, a tia teve que vendê-la. Ficou com duas camas no quarto, a dele, que ele já amava, e a nova, da tia. Passou em frente ao petshop e apaixonou-se por um papagaio, comprou-o. Tinha em casa, além do papagaio, dois cachorros, um grande e um pequeno, um gato felpudo, uma tartaruga e quatro peixinhos. Gostava da cor azul e também da branca, pintou a sala com as duas e os quartos de verde, pois também adorava.

Certa vez, numa conversa na praça, conheceu um homem cujo nome era Epaminondas, apaixonou-se, não pelo homem, mas sim pelo nome do homem e passou a se chamar, a partir daquele dia, Epaminondas. Mandou o ferreiro soldar uma placa com o novo nome e apaixonou-se pela arte de forjar metal. Bateu um prego, pendurou a placa na parede da sala, mas apaixonou-se pelo prego e não quis pendurar mais nada nele, deixou-o sozinho na parede. Amarrou a placa na maçaneta da porta preferida.

Epaminondas apaixonou-se por pedras portuguesas, alicates, celulares, plantas, flores, cores, chinelos, casacos e bicicletas. Por selos, porta-lápis, garfos, cidades, viagens e sabores. Apaixonou-se por manias: mania de cozinhar, de limpar, de atividades físicas e de cantar. Entrou pro coral, aprendeu violão e a tocar harpa. Estudou jardinagem, arquitetura, história, geografia, direito e cosmologia relativista. Pesquisou sobre extraterrestres e selos postais. Apaixonou-se por línguas: sabia javanês, inglês, japonês e o afegane. No futebol, torcia pra todos os times, sem exceções.

Era apaixonado por festa de aniversário e todo mês, no dia 12, fazia uma festa pra ele mesmo. Convidava os amigos, o DJ, que tocava de tudo e o buffet com todos os petiscos possíveis. Na festa de quarenta e três anos, Epaminondas, se apaixonou novamente, mas desta vez não foi por um sapato ou por alguma garrafa. Apaixonou-se pela nova vizinha, Filomena. Foi logo correspondido e começaram a namorar.

Epaminondas, certa vez, viajou a trabalho. Filomena, triste e solitária, resolveu dar uma geral na casa e fazer uma grande surpresa ao marido quando ele chegasse. De primeira, tirou o prego sem utilidade da parede. Depois, desamarrou a placa da maçaneta, que impedia em fechar totalmente a porta. Pegou as pedras, pedaços de madeira, papel, ferro, tudo que considerava lixo e jogou fora. Desfez de roupas velhas, bicicletas, livros e mais livros, fitas cassetes e de vídeos. Doou as duas camas de solteiro ao vizinho e no lugar colocou a dela, de casal. Pintou a sala de amarelo e os quartos de branco neve. Ensacou, encaixou e engavetou tudo que podia. Terminou.

Filomena, pela janela, avistou o amado subindo a rua, toda arrumada, ela sentou-se no sofá, abriu um largo e ansioso sorriso e ficou à espera. Quando Epaminondas entrou em casa e notou todas as mudanças, novamente, se apaixonou.

Januário

Januário não pensou duas vezes, depois que a esposa faleceu, juntou-se, descaradamente, com a amante. Não esperou nem a missa de sétimo dia, no quarto, já se atracava com a outra no botequim da rua, na frente de todo mundo.

Áurea, a amante, era deslumbrante dos pés a cabeça, foi uma das primeiras mulheres da cidade a colocar prótese nos seios e, apesar da idade, se conservava como fosse tombada pelo patrimônio histórico. Ninguém suspeitava que ela, a diva, poderosa, bela e notável, tivesse um caso com Januário, nem mesmo a falecida Eriberta imaginava, pois o homem, bruto e bronco, só faltava grunhir.

Dona Janice, sentinela da vida alheia, quase teve um ataque quando soube e, de momento, não acreditou.

- Como assim?

- Estão lá no bar, não se desgrudam. – Disse um garoto antes de descer correndo as escadarias.

Se existe algo mais rápido que a luz, poderíamos dizer que foi essa notícia. A rua inteirinha e até alguns bairros adjacentes souberam da fofoca. Homens esqueceram do futebol, mulheres da novela e até os mais novos, crianças e adolescentes, quiseram presenciar o ocorrido. Do lado de fora e em todo o interior do boteco havia gente, muita gente.

Januário estava de óculos escuros, não pra esconder as olheiras do sofrimento de perder recentemente a esposa, os óculos eram apenas mais um acessório do novo visual. Trajava uma jaqueta de mangas cortadas, calça jeans desfiada e uma bota de bico fino. Áurea estava de vestido vermelho, scarpin preto e fumava um cigarro atrás do outro. De nariz arrebitado, esperava impacientemente que o garçom trouxesse outra caipirinha de frutas vermelhas. Januário estava no sexto como de uísque.

O dono do boteco ficou excitado com a aglomeração. Rapidamente, aumentou o preço da cerveja e pediu reforços, recolocando os dois funcionários que estavam de folga para trabalhar. Januário, animadíssimo, desceu três caixas de cerveja para o povo, contratou um grupo de pagode e anunciou o casamento. Uma fila se estendeu até a esquina, todos faziam questão de cumprimentar a noiva.

Enquanto Januário encomendava, urgentemente, quatro centos de salgadinhos e o bolo, os garçons juntaram duas mesas, cobriram-na com um pano rosa e a rodearam com papel crepom lilás. Bolo enfeitado com glacê, casadinhos de última hora e um buquê de margaridas com samambaias.

De repente, o noivo ordenou que os músicos parassem, agarrou o microfone e engatou um discurso e, assim que estouraram uma garrafa de champanhe vagabunda, Januário debulhou em lágrimas. Todos voaram pra socorrê-lo, afinal, ninguém queria que a festa terminasse.

- Qual o motivo do choro meu filho? Estamos todos felizes aqui. Engole esse choro, homem. – Disse o dono do bar, rezando em silêncio pra festa não acabar.

Januário aos soluços, demorou a responder:

- Gostaria que a falecida, Eriberta, estivesse conosco e presenciasse esse momento feliz da minha vida. Ela adoraria essa festa.

7.1.10

Os hospedeiros de sexta-feira

Sexta-feira e a lua lá no céu. Eu estava bebendo, sozinho, em casa, antes de sair pra noite, o famoso e crucial esquenta. Banho tomado, som ligado e tentando ficar no sapatinho, a noite esticaria, como de praxe, até ao amanhecer. Quando estava saindo de casa para encontrar minha amiga, o telefone tocou. Desliguei o som e atendi, era meu companheiro da república, estava bêbado, óbvio.

- Alô?

Escutei quase nada, o barulho era imenso.

- Onde você está? – Perguntei sem sucesso.

- Estou indo pra casa. Junto com algumas pessoas. – A ligação caiu.

Quando meu amigo levava gente lá pra casa, era fato que todos dormiriam por lá, pois nenhum deles morava, digamos preconceituosamente, numa boa localização. Meu amigo espalhava desprovidos de condução por todos os lados: quartos, sala, banheiro e até no hall de entrada.

- Dessa vez... – Pensei alto. - No meu quarto não.

Corri até ao meu quarto e desfiz a cama. Coloquei, em cima dela, um violão, algumas almofadas e os organizei de uma forma que parecesse uma pessoa. Depois, cobri tudo com o edredom. Pra completar, peguei um par de tênis e encaixei perfeitamente no início do edredom. Ajeitei dali, ajeitei de cá. Perfeito, parecia que alguém dormia mesmo ali. Saí de casa.

Voltei sete horas depois, cambaleando e não conseguindo formular frases sensatas. Só um dos meus olhos estava aberto, morria de sono e só queria uma cama, a minha. Entrei na republica e notei pessoas espalhadas pela sala. Passei por cima de uma, pisei na mão de outra e apoiei o pé na nuca de alguém, ninguém se moveu, todos pareciam mortos de uma batalha, e no caso, a do álcool.

Quando abri a porta do meu quarto, depois de alguns minutos tentando reconhecer quem eram as pessoas que dormiam na minha casa, deparei-me com alguém deitado na minha cama, engoli seco.

Fiquei bravo, fiz um estardalhaço danado pra pegar um colchão, pequeno e fino, que ficava em cima do meu guarda-roupa, tudo pra acordar o meliante que dormia com o MEU edredom e na MINHA cama. Deitei-me quase dentro da cozinha, o único lugar vazio, e desmaiei.

No outro dia, meu amigo me acorda e pergunta quem está dormindo no meu quarto. Depois da pergunta, minha memória voltou como um computador reiniciado. Lembrei de tudo: do violão, das almofadas e até o detalhe do sapato, mas eu não daria esse mole ao meu amigo bem na frente de todos os amigos dele, ele me zoaria pelo resto da minha vida, rapidamente, rebati:

- É uma mulherzinha que eu peguei, veio dormir aqui. Pede pro pessoal fazer silêncio.

Entrei pro quarto e fechei a porta, antes de jogar tudo pro chão.

5.1.10

O lançamento


Não dormi na noite anterior e não por insônia, foi porque bebi até tarde com meus amigos para segurar a ansiedade. No outro dia, acordei cedo, as onze, tomei um café reforçado, exatamente um pedaço de queijo minas e um copo americano com café preto. Satisfeito, desci e pedi as primeiras cervejas do dia. Acompanhado do meu amigo Fredinho, depois das dez garrafas, partimos para o local do lançamento. No meio do caminho, parei.

- O quê foi? – Perguntou assustado meu amigo.

- E se o segurança não me deixar entrar? Afinal, só conheci uma ou duas pessoas da editora. Falei mais por e-mail e telefone.

- Larga de ser bobo. – Rebateu meu amigo. – Você diz que é o Thiago, o escritor do livro Álcroônicas.

- É, aí o segurança olha pra mim e diz: Ah sei, está bem, e eu sou o Machado de Assis, vai caçar seu rumo, seu cachaceiro.

Rimos e a tensão diminuiu. Atravessamos as portas da editora, exatamente duas da tarde, no horário combinado. Dez para as três e ninguém havia chegado. Pedi outra cerveja, mais outra e outra. Enfim, o povo chegou, nem todos. (Não é senhorita Déa?).


O lançamento do livro foi melhor que imaginei e, acreditem, todos os exemplares foram vendidos. - Para os engraçadinhos, eu já digo: minha mãe não comprou todos, Ok?

Enrolei-me na hora de autografar, esqueci de colocar os nomes de algumas pessoas e, nas outras, esqueci a data. Rir é o melhor disfarce para esconder a vergonha, então eu ri e todos riram. Peguei os livros e os corrigi, um por um.

Alguns dos meus amigos se embrenharam num boteco pé-sujo ao lado da editora, por lá ficaram e não assistiram ao debate. - Assustaram? Isso mesmo, eu participei de um debate. - Tive que subir no palco e falar num microfone sobre o livro. Mesmo com algumas cervejas na cabeça, a vergonha novamente apareceu.

Falei e respondi algumas coisas, mas só saia bobagens, o engraçado é que todos riram. Foi rápido para os outro, eu achei que nunca terminaria. Minha família gostou, meus amigos gostaram e, portanto, acho que também gostei.

Você, que não comprou, pode comprá-lo, sabia? Envie-me um e-mail com a solicitação, quem sabe ele vira um sucesso estrondoso e dê mais que chuchu na cerca. Ajudem um coitado que lançou o livro e nem sequer o cachorro foi pegar.

Pra comprar, mande um e-mail: panzaguerson@hotmail.com

Mais tarde coloco as fotos e vídeos.