O céu, negro, estava banhado de estrelas naquela sexta-feira. Os ponteiros do relógio, em forma de maçã verde, marcavam nove e quarenta. Clarissa, de camisola, assistia à televisão e pintava as unhas dos pés com o esmalte na cor rosa-chiclete. Uma revista de moda feminina mantinha-se aberta sobre a cama. De alguma forma, ela conseguia prestar a atenção no filme legendado e ler uma matéria sobre luzes no cabelo. Na rádio tocava às dez mais do dia. De repente, energicamente, pegou o celular e caçou o número de Eduardo, o garoto que ela estava afim.
Eduardo, de cueca samba-canção, jogava videogame quando o telefone vibrou em cima do criado-mudo. Olhou no visor, suou frio e pensou em não atender, mas era a garota que ele estava gostando. Respirou fundo e atendeu.
- Alô?
- Eduardo?
- Oi Clarissa, tudo bem?
- Tudo ótimo, e com você?
- Um pouco bêbado. – Risos.
- Bêbado? Já? – Risos.
- Uma vodka antes de sair não faz mal a ninguém.
- Vai sair? Pra onde?
- Dar umas voltas na Lapa, sem compromisso. E você, ficará em casa em plena sexta-feira?
Emudeceu.
- Nada, também darei umas voltinhas, mas... Eduardo, eu tenho que desligar, o interfone está tocando, deve ser minhas amigas. Beijos
- Tudo bem, beijos e até.
Desligou.
- Mãinhêêê! Traz meu leite? – Resmungou Eduardo com voz de coitado.
- Vem buscar. – Retrucaram lá da cozinha.
- Ah, Mãe. Você disse que não posso sair do quarto.
- Você não pode é sair de casa. Uma semana sem pisar na rua, do colégio pra casa. Está com sorte de jogar videogame. Não merecia.
- Ah mãe!
- Nem a e nem b, Carlos Eduardo.
Clarissa, com o telefone espremido entre o ombro e a orelha, remexia as roupas do armário enquanto falava com a amiga Fernanda.
- Não importa por que resolvi ir de última hora, me diga logo qual roupa você vai. – Dizia Clarissa jogando várias roupas em cima da cama. - É melhor ir de rasteirinha, não acha? Vou me acabar hoje.
- Explica o motivo, pois você me disse, toda apaixonadinha, que não sairia hoje. – Insistiu a amiga Fernanda.
- É que o corno acendeu o estopim.

