19.1.10

Que parto que pariu!

- Estourou! – Gritou uma mulher barriguda, sentada, desleixadamente, na poltrona da sala.

O namorado deixou o prato espatifar no chão da cozinha e saiu correndo. Passou direto pela sala, procurou-a no quarto, banheiro, quintal e, desesperado, gritou:

- Cadê você?

- Aqui na sala, animal.

Assim que chegou perto, Eliana, a namorada, notou a estranha respiração de Carlos.

- Quem deve fazer essa respiração sou eu e não você.

Ele nem deu ouvidos. Correu pro quarto bebê, inteiramente decorado, e tratou de fazer a mala. Pegou fralda, vestido, pente, chupeta e mamadeira, mas foi cortado por outro grito.

- Estourou novamente? – Dessa vez ele, desesperado, também gritou e apareceu esbaforido na sala.

- Está achando que são fogos de artifícios? – Rebateu a mulher, já sem paciência.

- Já volto, estou arrumando a mala. – Acrescentou ele, voltando, novamente, pro quarto.

- Ô mala! – Berrou ela. – A mala já está pronta há séculos. Pega o carro e vamos embora. Eu aguento tranquilamente essa dor, o difícil é aguentar você. Anda rápido.

O carro, praticamente zero, não pegava, ou Carlos, o quase-pai, não conseguia liga-lo de tanto nervosismo. Chamaram um táxi. Ele retirou a mala do bagageiro do carro, colocou a mala no táxi, entrou e pediu para o taxista seguir para o hospital. Eliana berrou, o taxista deu ré, ele saiu, abriu a porta traseira e deixou, agora, que ela entrasse.

A barriguda, logo que chegou ao hospital, foi levada para os preparativos da operação e Carlos, quase relaxado, aproveitou para realizar algumas ligações. Suava frio quando uma enfermeira se aproximou e lhe entregou os pertences da namorada. Depois de avisar aos amigos e parentes, ele se sentou numa poltrona, procurando relaxar totalmente, e ficou brincando com uma aliança que estava entre os pertences.

Nervoso, pois presenciaria todo o parto, ele enfiava, incessantemente, a aliança no dedinho mindinho, passava-a de uma mão a outra e a jogava pra cima, até que percebeu algo escrito na parte interna da aliança. Com dificuldade, ele leu. Havia um nome de outro homem escrito.

Carlos sentiu um forte aperto no peito, inicialmente, um ciúme doentio tomou-o por dentro, tentou lembrar quem seria Guilherme, - Um ex-namorado? - mas nada surgia em mente. O rosto que estava pálido até certo momento, tornou-se rubro. Virou três copos de água gelada, raciocinou bem e, esfriando a cabeça, chegou à conclusão que deixaria as perguntas pra mais tarde, esperaria uns trinta dias, até o neném deixar de ser recém-nascido, e depois tiraria satisfações com a namorada. Decidido, ele colocou a máscara e entrou na sala.

Eliana estava estirada na maca, com as pernas arreganhadas e tendo grandes contrações. Quando forçava, com a ajuda dos médicos, o rebento para fora, notou a presença do namorado, sentiu-se segura, mas a felicidade logo se foi quando percebeu a cara estranha de Carlos. Viu que ele olhava, de momento em momento, para as mãos. Míope, ela forçou bastante a vista para compreender que aquele objeto, dourado e brilhante, na mão do namorado, tratava-se de uma aliança.

Ela não acreditou que Carlos a pediria em casamento em pleno parto. Teve vontade de se levantar e esbofetear a cara dele, só pra ver se um pouco de noção entrava na cabeça do namorado. Tentou dizer algo, mas não saia nada entre os dentes travados pela dor, somente carregados e fortes urros escapavam. Ele notou a raiva que ela o fitava e ficou estarrecido na porta, não saía e nem entrava. Quando, novamente uma força o animou a entrar, Carlos foi puxado pela enfermeira para a ante-sala.

- Desculpe-me senhor. – Disse a enfermeira um pouco constrangida. – Mas aquelas coisas que lhe entreguei são de outra paciente.

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