21.1.10

O resgate do goleiro Silas

As tábuas corridas equilibradas numa estrutura de ferro, soldadas pelo lanterneiro do bairro, já se encontravam empenadas com tanta gente acomodada. Não havia espaço para mais ninguém. Era um domingo e o sol rachava com força total.
Em campo, a rivalidade dos times: Rua de Cima contra Esquina do Vilmar. A grande e esperada final. A grama era escassa, misturada com capim e arranha-gatos assassinos. Além dos adversários, os jogadores eram obrigados a driblar também as bostas de vaca espalhadas por todo o gramado. Os uniformes, dos dois times, eram surrados e tinham os números costurados nas costas, uns já se encontravam até dependurados. Chuteiras, tênis e chapas de papelão servindo de caneleira. Alguns jogadores se aqueciam, esticando as pernas de várias maneiras e outros viravam, freneticamente, copos e mais copos de cerveja.

Do lado esquerdo do campo, após a disputa da moeda, o time do técnico Vilmar, inteiramente reunido, discutia as últimas táticas. Do outro lado do campo, o lado da sombra, o time do técnico Jorjão, desfalcado, esperava impacientemente o goleiro Silas.

- Como assim ele não vem? – Gritou o técnico Jorjão.

- Problemas com a patroa dele. – Indagou Carlinhos, o capitão do time. – Acho que terminaram.

Jorjão ficou vermelho, parecia um tomate modificado geneticamente.

- Hoje é a grande final, temos que buscá-lo. Carlinhos, você é o capitão, vá resgatá-lo.

O capitão Carlinhos escolheu alguns companheiros e partiram de chuteiras no pé para a casa do goleiro. Logo que atravessaram o portão do pequeno estádio, Jorjão explicou ao juiz o motivo do atraso e a notícia logo se espalhou por todo o campo, desde o gandula até o último torcedor.

Carlinhos socou a porta da casa de Silas.

- Quem incomoda? – Respondeu uma voz moribunda lá de dentro.

- Silas? É o Carlinhos.

- Não posso falar agora.

- Precisamos conversar.

Depois de implorarem bastante, Silas abriu a porta. A cara de choro era visível na faceta de traços grossos de Silas. Era um sujeito grande e forte, mas possuía um coração de criança e era um dos poucos que usava da boa educação naquela área.

- Esqueceu do jogo, Silas? – Perguntou Juninho, o cabeça de área.

- Minha mulher me largou, fugiu com outro, eu nunca desconfiei de nada. – Respondeu desabando em lágrimas.

- Você é um homem bom, logo aparece outra mulher.

- O problema é a fama.

- Que fama cara?

- A fama de corno no bairro, todo mundo ficará sabendo, se já não sabem.

- Vamos logo pro jogo.

- Não!

- Você deve ir e mostrar que além de corno você é um ótimo goleiro. – Intrometeu Paulo, o xucro zagueiro.

- Que isso Paulo? Corno?

- Não foi isso que ele quis dizer. – Ajeitou Carlinhos. – Disse que o povo esquecerá disso se você defender todas as bolas da partida. Somente nós sabemos disso e ninguém contará, não é verdade gente?

Todos concordaram balançando a cabeça.


Depois de um copo de água com açúcar e muito sentimentalismo, Silas aceitou, pegou as luvas e acompanhou os amigos de casa até o campo, com o peito cheio de garra. No caminho as pessoas da rua se entreolhavam trocando olhares irônicos. Assim que Silas colocou os pés no gramado a algazarra da torcida cessou, todos os olhares eram pra ele. Carlinhos fez de tudo para que ele não percebesse, mas a torcida adversária iniciou um coro:

- Corno, Corno, Corno...

Carlinhos, rapidamente, chegou perto do goleiro e perguntou:

- Está escutando o grito da torcida?

Silas tombou a cabeça pro lado, com o intuito de escutar melhor e Carlinhos engatou:

- O calor é tanto, que estão gritando “forno”. Forno, forno, forno...

Silas sorriu, cantarolou “forno” e com o peito ainda cheio, se posicionou entre as traves para o início da partida, pois a esperança de melhorar a fama corria nas veias.

No início da partida, logo no primeiro lance, o meio campista do time de Valmir lançou a bola nos pés do lateral esquerdo, que, de peito de pé, enfiou a bola, certeira, na cabeça do atacante. Numa cabeçada perfeita, o número nove, jogou a bola no canto direito do gol, obrigando Silas a se esticar numa ponte, agarrando a pelota com as duas mãos. A torcida do Rua de Cima delirou, arregaçando aos berros, num coro de copa do mundo.

Silas rapidamente chutou a bola para frente e, num lance perfeito, Carlinhos lançou a bola nos pés do atacante, que logo, jogou a bola de um lado do zagueiro e pegou do outro, finalizando, perfeitamente, o famoso drible da vaca, chutando, a seguir, de três dedos, a bola, no ângulo direito do goleiro, fazendo um gol de placa.

A partida recomeçou com os times disputando heroicamente a bola no meio de campo. Os ataques depois do gol, em ambas as áreas, eram pouco frequentes. Os goleiros trabalhavam o básico e mantiveram o resultado empatado até o término da primeira etapa.

Após os quinze minutos no vestiário, estudando novas táticas, retornaram ao campo e o juiz, pontualmente, apitou o início do segundo tempo. A partida começou pesada, com muitas faltas, empurrões e cartões amarelos. Silas defendia magicamente todas as bolas chutadas pelos atacantes da Esquina do Vilmar, mas o clima ficou tenso aos quarenta e quatro minutos, quando, numa bola enfiada, o atacante, do Esquina do Valmir, ficou cara a cara com Silas. O atacante puxou pra esquerda, ajeitou a bola e quando armou para chutar foi travado bruscamente pelo zagueiro Paulo. Pênalti!

Ninguém tinha dúvidas, a penalidade era clara. Depois de muita confusão e expulsão do zagueiro, o batedor ajeitou a bola na marca e se afastou, quase chegando ao circulo do meio de campo.

Silas tentava manter a concentração na bola, mas ela se dissipava quando recordava da esposa. Lembrou da fama, do bairro e dos apelidos. Forçou a mente, voltou a pensar nos amigos e em ser o melhor goleiro. Abriu as mãos, após fazer a cruz, e ajeitou-se no meio do gol.

O juiz apitou, o batedor partiu como uma máquina de trem ao encontro da bola e, ignorantemente, a chutou, de bico. A bola espatifou na testa de Silas, saindo depois para fora de campo. O juiz apitou. Término da partida.

O goleiro foi carregado pelos outros jogadores, a torcida pulava e gritava sem parar. Silas foi ovacionado, se esqueceu da mulher, pensava somente na suada vitória e do heroísmo em campo. Até Valmir, o técnico adversário, falar ao pé do ouvido de Silas:

- Com o chifre, até eu catava!
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