As tábuas corridas equilibradas numa estrutura de ferro, soldadas pelo lanterneiro do bairro, já se encontravam empenadas com tanta gente acomodada. Não havia espaço para mais ninguém. Era um domingo e o sol rachava com força total.
Em campo, a rivalidade dos times: Rua de Cima contra Esquina do Vilmar. A grande e esperada final. A grama era escassa, misturada com capim e arranha-gatos assassinos. Além dos adversários, os jogadores eram obrigados a driblar também as bostas de vaca espalhadas por todo o gramado. Os uniformes, dos dois times, eram surrados e tinham os números costurados nas costas, uns já se encontravam até dependurados. Chuteiras, tênis e chapas de papelão servindo de caneleira. Alguns jogadores se aqueciam, esticando as pernas de várias maneiras e outros viravam, freneticamente, copos e mais copos de cerveja.
Do lado esquerdo do campo, após a disputa da moeda, o time do técnico Vilmar, inteiramente reunido, discutia as últimas táticas. Do outro lado do campo, o lado da sombra, o time do técnico Jorjão, desfalcado, esperava impacientemente o goleiro Silas.
- Como assim ele não vem? – Gritou o técnico Jorjão.
- Problemas com a patroa dele. – Indagou Carlinhos, o capitão do time. – Acho que terminaram.
Jorjão ficou vermelho, parecia um tomate modificado geneticamente.
- Hoje é a grande final, temos que buscá-lo. Carlinhos, você é o capitão, vá resgatá-lo.
O capitão Carlinhos escolheu alguns companheiros e partiram de chuteiras no pé para a casa do goleiro. Logo que atravessaram o portão do pequeno estádio, Jorjão explicou ao juiz o motivo do atraso e a notícia logo se espalhou por todo o campo, desde o gandula até o último torcedor.
Carlinhos socou a porta da casa de Silas.
- Quem incomoda? – Respondeu uma voz moribunda lá de dentro.
- Silas? É o Carlinhos.
- Não posso falar agora.
- Precisamos conversar.
Depois de implorarem bastante, Silas abriu a porta. A cara de choro era visível na faceta de traços grossos de Silas. Era um sujeito grande e forte, mas possuía um coração de criança e era um dos poucos que usava da boa educação naquela área.
- Esqueceu do jogo, Silas? – Perguntou Juninho, o cabeça de área.
- Minha mulher me largou, fugiu com outro, eu nunca desconfiei de nada. – Respondeu desabando em lágrimas.
- Você é um homem bom, logo aparece outra mulher.
- O problema é a fama.
- Que fama cara?
- A fama de corno no bairro, todo mundo ficará sabendo, se já não sabem.
- Vamos logo pro jogo.
- Não!
- Você deve ir e mostrar que além de corno você é um ótimo goleiro. – Intrometeu Paulo, o xucro zagueiro.
- Que isso Paulo? Corno?
- Não foi isso que ele quis dizer. – Ajeitou Carlinhos. – Disse que o povo esquecerá disso se você defender todas as bolas da partida. Somente nós sabemos disso e ninguém contará, não é verdade gente?
Todos concordaram balançando a cabeça.
Depois de um copo de água com açúcar e muito sentimentalismo, Silas aceitou, pegou as luvas e acompanhou os amigos de casa até o campo, com o peito cheio de garra. No caminho as pessoas da rua se entreolhavam trocando olhares irônicos. Assim que Silas colocou os pés no gramado a algazarra da torcida cessou, todos os olhares eram pra ele. Carlinhos fez de tudo para que ele não percebesse, mas a torcida adversária iniciou um coro:
- Corno, Corno, Corno...
Carlinhos, rapidamente, chegou perto do goleiro e perguntou:
- Está escutando o grito da torcida?
Silas tombou a cabeça pro lado, com o intuito de escutar melhor e Carlinhos engatou:
- O calor é tanto, que estão gritando “forno”. Forno, forno, forno...
Silas sorriu, cantarolou “forno” e com o peito ainda cheio, se posicionou entre as traves para o início da partida, pois a esperança de melhorar a fama corria nas veias.
No início da partida, logo no primeiro lance, o meio campista do time de Valmir lançou a bola nos pés do lateral esquerdo, que, de peito de pé, enfiou a bola, certeira, na cabeça do atacante. Numa cabeçada perfeita, o número nove, jogou a bola no canto direito do gol, obrigando Silas a se esticar numa ponte, agarrando a pelota com as duas mãos. A torcida do Rua de Cima delirou, arregaçando aos berros, num coro de copa do mundo.
Silas rapidamente chutou a bola para frente e, num lance perfeito, Carlinhos lançou a bola nos pés do atacante, que logo, jogou a bola de um lado do zagueiro e pegou do outro, finalizando, perfeitamente, o famoso drible da vaca, chutando, a seguir, de três dedos, a bola, no ângulo direito do goleiro, fazendo um gol de placa.
A partida recomeçou com os times disputando heroicamente a bola no meio de campo. Os ataques depois do gol, em ambas as áreas, eram pouco frequentes. Os goleiros trabalhavam o básico e mantiveram o resultado empatado até o término da primeira etapa.
Após os quinze minutos no vestiário, estudando novas táticas, retornaram ao campo e o juiz, pontualmente, apitou o início do segundo tempo. A partida começou pesada, com muitas faltas, empurrões e cartões amarelos. Silas defendia magicamente todas as bolas chutadas pelos atacantes da Esquina do Vilmar, mas o clima ficou tenso aos quarenta e quatro minutos, quando, numa bola enfiada, o atacante, do Esquina do Valmir, ficou cara a cara com Silas. O atacante puxou pra esquerda, ajeitou a bola e quando armou para chutar foi travado bruscamente pelo zagueiro Paulo. Pênalti!
Ninguém tinha dúvidas, a penalidade era clara. Depois de muita confusão e expulsão do zagueiro, o batedor ajeitou a bola na marca e se afastou, quase chegando ao circulo do meio de campo.
Silas tentava manter a concentração na bola, mas ela se dissipava quando recordava da esposa. Lembrou da fama, do bairro e dos apelidos. Forçou a mente, voltou a pensar nos amigos e em ser o melhor goleiro. Abriu as mãos, após fazer a cruz, e ajeitou-se no meio do gol.
O juiz apitou, o batedor partiu como uma máquina de trem ao encontro da bola e, ignorantemente, a chutou, de bico. A bola espatifou na testa de Silas, saindo depois para fora de campo. O juiz apitou. Término da partida.
O goleiro foi carregado pelos outros jogadores, a torcida pulava e gritava sem parar. Silas foi ovacionado, se esqueceu da mulher, pensava somente na suada vitória e do heroísmo em campo. Até Valmir, o técnico adversário, falar ao pé do ouvido de Silas:
- Com o chifre, até eu catava!

