13.1.10

Januário

Januário não pensou duas vezes, depois que a esposa faleceu, juntou-se, descaradamente, com a amante. Não esperou nem a missa de sétimo dia, no quarto, já se atracava com a outra no botequim da rua, na frente de todo mundo.

Áurea, a amante, era deslumbrante dos pés a cabeça, foi uma das primeiras mulheres da cidade a colocar prótese nos seios e, apesar da idade, se conservava como fosse tombada pelo patrimônio histórico. Ninguém suspeitava que ela, a diva, poderosa, bela e notável, tivesse um caso com Januário, nem mesmo a falecida Eriberta imaginava, pois o homem, bruto e bronco, só faltava grunhir.

Dona Janice, sentinela da vida alheia, quase teve um ataque quando soube e, de momento, não acreditou.

- Como assim?

- Estão lá no bar, não se desgrudam. – Disse um garoto antes de descer correndo as escadarias.

Se existe algo mais rápido que a luz, poderíamos dizer que foi essa notícia. A rua inteirinha e até alguns bairros adjacentes souberam da fofoca. Homens esqueceram do futebol, mulheres da novela e até os mais novos, crianças e adolescentes, quiseram presenciar o ocorrido. Do lado de fora e em todo o interior do boteco havia gente, muita gente.

Januário estava de óculos escuros, não pra esconder as olheiras do sofrimento de perder recentemente a esposa, os óculos eram apenas mais um acessório do novo visual. Trajava uma jaqueta de mangas cortadas, calça jeans desfiada e uma bota de bico fino. Áurea estava de vestido vermelho, scarpin preto e fumava um cigarro atrás do outro. De nariz arrebitado, esperava impacientemente que o garçom trouxesse outra caipirinha de frutas vermelhas. Januário estava no sexto como de uísque.

O dono do boteco ficou excitado com a aglomeração. Rapidamente, aumentou o preço da cerveja e pediu reforços, recolocando os dois funcionários que estavam de folga para trabalhar. Januário, animadíssimo, desceu três caixas de cerveja para o povo, contratou um grupo de pagode e anunciou o casamento. Uma fila se estendeu até a esquina, todos faziam questão de cumprimentar a noiva.

Enquanto Januário encomendava, urgentemente, quatro centos de salgadinhos e o bolo, os garçons juntaram duas mesas, cobriram-na com um pano rosa e a rodearam com papel crepom lilás. Bolo enfeitado com glacê, casadinhos de última hora e um buquê de margaridas com samambaias.

De repente, o noivo ordenou que os músicos parassem, agarrou o microfone e engatou um discurso e, assim que estouraram uma garrafa de champanhe vagabunda, Januário debulhou em lágrimas. Todos voaram pra socorrê-lo, afinal, ninguém queria que a festa terminasse.

- Qual o motivo do choro meu filho? Estamos todos felizes aqui. Engole esse choro, homem. – Disse o dono do bar, rezando em silêncio pra festa não acabar.

Januário aos soluços, demorou a responder:

- Gostaria que a falecida, Eriberta, estivesse conosco e presenciasse esse momento feliz da minha vida. Ela adoraria essa festa.

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