Era verão, um sábado. Acordou com o barulho do caminhão de lixo e, quase simultaneamente, bateram na porta, olhou no relógio, eram dez e meia, a ressaca reinava. Assim que a abriu, Janete entrou esbaforida com várias sacolas de compras penduradas no ombro. João nem sequer prestou ajuda, foi para a cozinha, colocou água pra ferver e acendeu um cigarro. Janete não parava de falar lá na sala, criou coragem e voltou.
- Fumando de barriga vazia? – Disse ela, sem querer uma resposta.
João não respondeu e sentou-se no único lugar que não havia bolsas apoiadas.
- Fiz umas comprinhas.
- Comprinhas?
- É. Comprei umas coisas pra você e, também, pra mim. Óbvio.
- Pra mim?
- Isso. Você está precisando de camisas novas, as suas estão muito velhas.
- Olha essa aqui, ô, linda. – Disse Janete, animadíssima.
- Rosa?
- Isto não é rosa, bobo, é lilás.
- Lilás?
- Ficará ótima com a sua calça xadrez.
- Eu não tenho calça xadrez.
- Agora tem. – Rebateu ela enfiando a mão numa das sacolas.
- Janete, meu estilo não é esse. Isso não combina comigo.
- E você alguma vez na vida já teve algum estilo? Pega isso e experimenta.
- Vou acordar primeiro.
- Anda logo, já estou perdendo a paciência.
- Então passe o café pra mim. – Ordenou antes de ir para o quarto.
Voltou vestido com a calça xadrez e a blusa lilás.
- Está um gatinho, mas você tem que cortar esse cabelo, está sem corte. Horrível.
Havia duas semanas que João havia cortado o cabelo, mas não quis se aprofundar no assunto. Pegou uma xícara, desperdiçou o café nela e, no primeiro gole, engasgou.
- Você não adoçou?
- João Guilherme, açúcar faz mal, muito mal. Coloque o adoçante.
- Aqui em casa não tem adoçante.
- Tem sim, na segunda porta do armário.
Foi até a cozinha e colocou três colheres cheias de açúcar, sem que ela percebesse. Quando retornou a sala, foi surpreendido por uma espirrada de perfume, levou um susto.
- Olha que delícia esse cheiro, comprei pra você. É feminino, mas eu adoro.
- Feminino?
- Isso mesmo, não tem problema algum. O meu, você já disse que gosta muito do meu, não é? Então, o meu é masculino.
- Eu gosto de perfume em você, não em mim.
- Agora... – Começou ela com as mãos pra trás e um sorriso imenso na face. – Tenho uma surpresa pra você.
- Outra?
- Feche os olhos.
- Era tudo que eu queria. Fechar meus olhos até as duas da tarde.
- Pode abrir.
- Que chapéu é esse?
- Gostou? Não é chapéu, é boina.
- Não, não combinou com você.
- Também não é pra mim idiota, é pra você.
- Pra mim? – Perguntou abismado.
- Experimenta!
- Não.
Ela o olhou de cara feia. Ele obedeceu.
- Ficou lindo, me dá um beijo agora. – Beijaram-se. – Amor, eu tenho que ir ao salão fazer as unhas. Vá cortar seu cabelo e tome aqui o seu cartão de crédito.
- Meu cartão?
Janete nem respondeu, deixou apenas duas das sacolas e levou todo o resto.

