17.1.10

Furacão

Era verão, um sábado. Acordou com o barulho do caminhão de lixo e, quase simultaneamente, bateram na porta, olhou no relógio, eram dez e meia, a ressaca reinava. Assim que a abriu, Janete entrou esbaforida com várias sacolas de compras penduradas no ombro. João nem sequer prestou ajuda, foi para a cozinha, colocou água pra ferver e acendeu um cigarro. Janete não parava de falar lá na sala, criou coragem e voltou.

- Fumando de barriga vazia? – Disse ela, sem querer uma resposta.

João não respondeu e sentou-se no único lugar que não havia bolsas apoiadas.

- Fiz umas comprinhas.

- Comprinhas?

- É. Comprei umas coisas pra você e, também, pra mim. Óbvio.

- Pra mim?

- Isso. Você está precisando de camisas novas, as suas estão muito velhas.

- Olha essa aqui, ô, linda. – Disse Janete, animadíssima.

- Rosa?

- Isto não é rosa, bobo, é lilás.

- Lilás?

- Ficará ótima com a sua calça xadrez.

- Eu não tenho calça xadrez.

- Agora tem. – Rebateu ela enfiando a mão numa das sacolas.

- Janete, meu estilo não é esse. Isso não combina comigo.

- E você alguma vez na vida já teve algum estilo? Pega isso e experimenta.

- Vou acordar primeiro.

- Anda logo, já estou perdendo a paciência.

- Então passe o café pra mim. – Ordenou antes de ir para o quarto.

Voltou vestido com a calça xadrez e a blusa lilás.

- Está um gatinho, mas você tem que cortar esse cabelo, está sem corte. Horrível.

Havia duas semanas que João havia cortado o cabelo, mas não quis se aprofundar no assunto. Pegou uma xícara, desperdiçou o café nela e, no primeiro gole, engasgou.

- Você não adoçou?

- João Guilherme, açúcar faz mal, muito mal. Coloque o adoçante.

- Aqui em casa não tem adoçante.

- Tem sim, na segunda porta do armário.

Foi até a cozinha e colocou três colheres cheias de açúcar, sem que ela percebesse. Quando retornou a sala, foi surpreendido por uma espirrada de perfume, levou um susto.

- Olha que delícia esse cheiro, comprei pra você. É feminino, mas eu adoro.

- Feminino?

- Isso mesmo, não tem problema algum. O meu, você já disse que gosta muito do meu, não é? Então, o meu é masculino.

- Eu gosto de perfume em você, não em mim.

- Agora... – Começou ela com as mãos pra trás e um sorriso imenso na face. – Tenho uma surpresa pra você.

- Outra?

- Feche os olhos.

- Era tudo que eu queria. Fechar meus olhos até as duas da tarde.

- Pode abrir.

- Que chapéu é esse?

- Gostou? Não é chapéu, é boina.

- Não, não combinou com você.

- Também não é pra mim idiota, é pra você.

- Pra mim? – Perguntou abismado.

- Experimenta!

- Não.

Ela o olhou de cara feia. Ele obedeceu.

- Ficou lindo, me dá um beijo agora. – Beijaram-se. – Amor, eu tenho que ir ao salão fazer as unhas. Vá cortar seu cabelo e tome aqui o seu cartão de crédito.

- Meu cartão?

Janete nem respondeu, deixou apenas duas das sacolas e levou todo o resto.

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