24.1.10

Feitio

Quando chegava a casa, ela pendurava a bolsa na cadeira, retirava as sandálias sem a ajuda das mãos, acendia as cinco velas do candelabro e sentava na banqueta do piano. Como todos os dias, os ágeis e flexíveis dedos exploravam todo o piano soando uma bossa nova. Fechava os olhos e se deixava levar. Sentia recarregar as forças e era, sempre, o momento mais perfeito do dia. Na ponta dos pés, ela ia até ao bar. Depois de três cubos de gelo, caprichava o copo com uísque, deixava-o descer pela garganta e rebuscava o paladar a senti-lo mais. Abriu a cigarrilha com as mãos de unhas impecavelmente feitas, acendeu o cigarro e tragou-o com tanto prazer que, como ao piano, deixou os olhos fecharem.
Com o cigarro preso entre os fartos lábios, ela corria os dedos pelo teclado, levando, lentamente, um bolero qualquer. Entornou ainda mais, da garrafa, no copo, prendeu os cabelos e colocou o vinil de Nelson Gonçalves. Arriscou passos, tendo, como parceiro, o copo com uísque. Como, tinha tremoços na geladeira, serviu-se numa pequena bandeja, precisava de sal. Aumentou o som e o tamanho da dose no copo. Ligou o gás do chuveiro e se despiu. Apenas de calcinha, se deixou ao vício e acendeu outro cigarro. Dançou a música inteira e, quando caminhava até o banheiro, o celular apitou duas vezes. Era ele, dizendo que tinha dois convites para uma boate. Ela desligou o celular, o gás e aumentou, ainda mais, o som.
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