13.1.10

Apaixonando

Passava a vida a se apaixonar. Apaixonou-se pela velha cama de solteiro da tia e, de tanto insistir em comprar, a tia teve que vendê-la. Ficou com duas camas no quarto, a dele, que ele já amava, e a nova, da tia. Passou em frente ao petshop e apaixonou-se por um papagaio, comprou-o. Tinha em casa, além do papagaio, dois cachorros, um grande e um pequeno, um gato felpudo, uma tartaruga e quatro peixinhos. Gostava da cor azul e também da branca, pintou a sala com as duas e os quartos de verde, pois também adorava.

Certa vez, numa conversa na praça, conheceu um homem cujo nome era Epaminondas, apaixonou-se, não pelo homem, mas sim pelo nome do homem e passou a se chamar, a partir daquele dia, Epaminondas. Mandou o ferreiro soldar uma placa com o novo nome e apaixonou-se pela arte de forjar metal. Bateu um prego, pendurou a placa na parede da sala, mas apaixonou-se pelo prego e não quis pendurar mais nada nele, deixou-o sozinho na parede. Amarrou a placa na maçaneta da porta preferida.

Epaminondas apaixonou-se por pedras portuguesas, alicates, celulares, plantas, flores, cores, chinelos, casacos e bicicletas. Por selos, porta-lápis, garfos, cidades, viagens e sabores. Apaixonou-se por manias: mania de cozinhar, de limpar, de atividades físicas e de cantar. Entrou pro coral, aprendeu violão e a tocar harpa. Estudou jardinagem, arquitetura, história, geografia, direito e cosmologia relativista. Pesquisou sobre extraterrestres e selos postais. Apaixonou-se por línguas: sabia javanês, inglês, japonês e o afegane. No futebol, torcia pra todos os times, sem exceções.

Era apaixonado por festa de aniversário e todo mês, no dia 12, fazia uma festa pra ele mesmo. Convidava os amigos, o DJ, que tocava de tudo e o buffet com todos os petiscos possíveis. Na festa de quarenta e três anos, Epaminondas, se apaixonou novamente, mas desta vez não foi por um sapato ou por alguma garrafa. Apaixonou-se pela nova vizinha, Filomena. Foi logo correspondido e começaram a namorar.

Epaminondas, certa vez, viajou a trabalho. Filomena, triste e solitária, resolveu dar uma geral na casa e fazer uma grande surpresa ao marido quando ele chegasse. De primeira, tirou o prego sem utilidade da parede. Depois, desamarrou a placa da maçaneta, que impedia em fechar totalmente a porta. Pegou as pedras, pedaços de madeira, papel, ferro, tudo que considerava lixo e jogou fora. Desfez de roupas velhas, bicicletas, livros e mais livros, fitas cassetes e de vídeos. Doou as duas camas de solteiro ao vizinho e no lugar colocou a dela, de casal. Pintou a sala de amarelo e os quartos de branco neve. Ensacou, encaixou e engavetou tudo que podia. Terminou.

Filomena, pela janela, avistou o amado subindo a rua, toda arrumada, ela sentou-se no sofá, abriu um largo e ansioso sorriso e ficou à espera. Quando Epaminondas entrou em casa e notou todas as mudanças, novamente, se apaixonou.

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