18.12.09

Ela nem ficou sabendo.

Ernani estremeceu quando viu Carolina. Mais bonita que o habitual, ela trajava um vestido rosa, de decote sério, e dançava elegantemente no salão. Estava acompanhada com outras amigas, não tão bonitas como ela, mas todas com boa aparência. Tentou se aproximar da moça, mas algo, quase paranormal, o empurrou para o bar. Pediu uma cerveja e uma dose dupla de vodka com gelo, desceram como água. Agarrou outra latinha de cerveja e, de longe, vigiou Carolina, esperando que uma coragem, súbita, surgisse e ele a surpreendesse com um flerte típico, e certeiro, de cinema.

Carolina soltou os cabelos com tanta distinção, que Ernani pareceu ver o momento em câmera lenta, suspirou. Nesse momento, sob um impulso incomum, ajeitou os cabelos e rumou ao grupo das meninas. Não foi um bofetão, mas sentiu como se fosse, Carolina, naquele exato momento, selava três beijinhos na bochecha de outro homem. Ernani ficou mais irritado pelo sorriso que ela abriu no rosto, do que pelos beijos.

Voltou ao bar e pegou outra vodka. Observava que as mãos salientes, do estranho homem, encostavam em variadas partes de Carolina e ela não parava de sorrir. Foi a terceira vodka que o deu forças, arregaçou as mangas e, ferozmente, caminhou, novamente, de encontro a roda. Suava frio e a respiração aumentava o ritmo conforme se aproximava, mas, de repente, o homem saiu de perto da moça e sumiu na multidão, Ernani se deteve.

Sentiu que precisava beber algo, voltou ao bar e se emparelhou, coincidemente, com o recente rival. Virou outra dose de vodka e cutucou o sujeito no ombro. Depois de entornar vários palavrões em cima do sujeito, é que Ernani analisou a imensa, e grosseira, estatura do homem.

- Não sei sobre o que você está falando. – Rebateu o homem.

- Não sabe? – Continuou Ernani, enrolando a língua. – A Carolina é minha, pode tirar as mãos sujas dela. É um aviso, não se aproxime mais.

- Quem é Carolina rapaz? Você está bêbado e louco.

- Louco? Louco é isso aqui. – Respondeu fechando as mãos.

Assim que armou o soco, um segurança interveio por trás. O imenso homem aproveitou a deixa e sumiu novamente no meio da multidão.

Foram necessários dois seguranças para acalmar Ernani, quando se conteve, retornou a procurar Carolina, mas não obteve sucesso. O furdúnço ocasionado pelo início da briga afastou a clientela para o centro do salão. Ernani, prontamente, depois de comprar outra cerveja, subiu para a varanda do segundo pavimento, achou que naquela posição seria mais fácil a localização da amada.

Mesmo com uma imensa placa proibindo o apoio de copos e latas de cervejas no parapeito da varanda, Ernani apoiou a dele e num movimento brusco, com reflexo todo alterado, deixou que a lata escapasse.

Outra vez, Ernani viu tudo em câmera lenta, enquanto a lata descia, o inimigo se aproximava do local exato onde a lata se espatifaria e não deu outra, acertou em cheio a cabeça do sujeito. Instintivamente ele olhou pra cima, Ernani tentou se esconder, mas foi em vão, o homem logo o reconheceu.

- Filho da put...

Eram duas da manhã quando Ernani saiu às pressas da boate. Um vento frio cortava a imensa rua, enquanto ele caminhava até ao único ponto de ônibus. Sentou-se no banco, acendeu um cigarro e ficou a espera da condução, minutos depois, retirando o silêncio do lugar, um transeunte informou que os ônibus só voltavam a rodar a partir das quatro da manhã. Sem dúvidas, Ernani andou mais um pouco e entrou num pequeno boteco. Pediu uma cerveja, um sanduíche de pernil e encarou o televisor que passava, em preto e branco, um filme de faroeste.

Quando o ponteiro alcançou o número quatro, Ernani pagou a conta e caminhou pro ponto. Embriagado, foi trocando os pés, lentamente, pelo meio da rua. No momento que se aproximava do ponto notou que alguém já se encontrava lá. Com a vista embaralhada demorou a perceber quem era, quando enxergou, agilmente pulou atrás de uma caçamba de entulhos. O rival de Ernani também esperava o ônibus.

- Se eu aparecer ali, ele me mata. – Os pensamentos começaram a fluir na cabeça de Ernani. – Mas, me parece que ele está com um cigarro apaga nas mãos, será que ele não tem fogo? Posso chegar com o isqueiro na mão e ele ainda me agradecerá. Não, não. - Corrigiu-se. - Ele enfiará um soco na minha cara e a esfregará no chão até fazer fogo.

Agachado, Ernani pegou o caminho inverso e andou rapidamente toda rua, depois de seis quarteirões achou outro ponto. O ônibus logo surgiu, ele entrou e antes de passar pela roleta, disse que havia um sujeito, no ponto seguinte, batendo e assaltando todo mundo da rua, aconselhou ao motorista a passar direto. Pagou a passagem e se acomodou no último banco.

O motorista fez o sinal da cruz e enfiou o pé no acelerador. Ernani sorria aliviado, mas foi por pouco tempo, estranhamente o motorista afundou bruscamente o pé no freio e o ônibus deslizou por alguns metros na rua antes de parar. Ernani engoliu seco.

O bigodudo, que conduzia a veículo, abriu a porta, desceu e foi de encontro ao homem do ponto.

- Filho? É você?

- Pai? O senhor iria passar direto?

- Meu filho, o papai já não te explicou sobre isso? Você está na condicional, será preso por bobeira e ficará preso por anos, como o papai já ficou. É tão horrível. Pare com esse lance de assalto, vá procurar uma igreja.

- Que assalto pai? Já disse ao senhor que não faço mais isso. Tenho outra vida agora.

- Isso mesmo, não adianta me enganar, um dos meus passageiros disse que você estava assaltando todos que passavam por aqui e o papai conhece muito bem a sua fama.

Ernani fugiu pela janela.

Álcroônicas Reunidas - O Livro


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14.12.09

Álcroônicas Reunidas - O Livro



9.12.09

Não é rotina, é habito.

Sentia vontade de sumir daquele lugar, largar o trabalho e a obrigação chata de andar com cartão de acesso da empresa pendurado no pescoço. Queria desaparecer de casa e deixar de vez a amargosa esposa, que, pra ele, era o maior problema. Não precisava nem carregar os trapos, deixaria tudo pra trás, viveria como um andarilho, de um canto ao outro, mas querer não era poder, até mesmo na vida de Cândido.

Ele tinha obrigações e manias, tornando o cotidiano algo inalterável. Criava dois canários da terra numa gaiola herdada do avô e eram como filhos. Sempre escolhia o alpiste mais fresco no mercadinho de Seu Alaor para dar aos pássaros e aproveitava para comprar uma pequena quantia de fumo de rolo.

Criava, também, um cachorro chamado Astolfo, que só se alimentava de restos de comida, e, por esse motivo, ocasionava, quase sempre, um odor medonho nas fezes. Levava-o para passear todos os dias, bem cedo, antes mesmo do nascer do sol, e esperava, calmamente, levantarem as portas da padaria. Sempre comprava um maço de cigarros, fumava um dos cigarros e bebia uma média fervente. Era o tempo necessário de sair a primeira, e fresca, leva de pães.

Nos finais de semana era de praxe, Cândido, depois que entregava o pão em casa, saía novamente e parava no boteco do bairro. Entre doses homeopáticas de cachaça e tulipas de chope, ficava apoiado no balcão até a hora do almoço. Comia um mexido e deitava atravessado na cama, dormia até as três, após o café preto, sem açúcar, da tarde, retornava ao bar onde se estendia até a noite.

Foi numa dessas, num sábado nebuloso, que Cândido, depois de tomar todas, tomou o rumo contrário ao de casa. Sacou metade da poupança, deixando a outra pra esposa, comprou uma passagem rodoviária qualquer e seguiu viagem. Fez baldeações e mais baldeações, pediu caronas e numa beira de estrada, a norte do país, comprou, na pechincha, uma velha camionete azul. Cortou várias cidades até o inerente veículo, caprichado de quilômetros, enguiçar, a norte do norte, numa pequenina cidade.

Hospedou-se na pensão por duas semanas e, com a frequencia assídua no bar, aliás, o único do lugar, rapidamente arrumou um emprego. Cândido tinha como ofício a marcenaria, fez-se profissional através de um curso pelo correio e, por dom, inventou variadas técnicas para trabalhar com madeiras.

Com um ano de trabalho, arrendou um terreno, construiu uma bela casa, refez todo o enxoval e encheu o guarda-roupa com roupas novas. Pendurou uma gaiola de aço com um canário, agora Belga, que comprou de um peão errante, num prego saliente da varanda. Ganhou do patrão um jovem cachorro vira-latas que, de primeira, o nomeou de Ulisses.

Todo o dia cinco do mês, Cândido pagava, em dinheiro vivo, os quilos de alpiste e as lascas de fumo de rolo que pendurava, durante o decorrer do mês, na venda. Nas manhãs, ele adorava dizer as moças da padaria, que nunca, na vida inteira, havia bebido uma média tão saborosa. Arlete, uma das atendentes, que adorava os elogios do homem, bem que tentou uma aproximação o enchendo de elogios, mas Cândido a cortava e dizia que não era um homem ligado a rotina, não estava preparado para a vida regrada de casado. Cândido era um homem feliz, mas ficaria bem mais se tivesse de volta a gaiola de madeira herdada do avô.

4.12.09

À pele da flor

Estou à pele da flor,
Meu sorriso,
Aflora até na dor.
Não por prazer em tê-la,
Mas sim, de reconhecê-la.
Quem mal me quiser,
E da dor me prover,
Receberá embrulhado,
Duplicado a dita má fé.
Estou à pele da flor,
Onde meu sorriso,
Sempre sobrou.
Bendita será,
E saboreará,
Ao invés da dor salpicar,
Prestar-me de boa fé.

2.12.09

Nós temos amor ao tricolor




Torcer pro Fluminense não é pra qualquer um, ninguém pode chegar, de um dia para o outro, e dizer que é tricolor. Ninguém se torna tricolor, não existimos como vira-casacas, não somos um time de fachada.

Todos nós, tricolores, fulguramos da nascença e somos dignos dela, não por manifestar-se no mundo físico, mas pelo vingar da alma, da alma tricolor. É um encanto decorrente o brilho das três cores, que esvai do nosso peito fazendo que os tricolores sempre reconheçam uns aos outros.

O tricolor não carrega rancor, não vive de méritos, não sustenta o fardo de sempre vencer, isso é capricho e nós não vivemos nessa fantasia. Somos tricolores na derrota, no desprendimento do empate e na maestria da vitória.

Tricolores quando tudo destina ao errado, quando o âmbito é o esmago, quando a sorte é o único, e certo, passo. Há tricolor em todas as partes, há tricolores que nem mesmo sabem.

Somos tricolores de coração, somos do time que, foi, e será tantas vezes campeão.

Boa sorte FLU!