27.11.09

Detalhes do destino

Não foi no primeiro olhar, foi no primeiro esbarrão. Final de semana, supermercado cheio, bem na esquina dos laticínios com o açougue, o baque foi grande, carrinho com carrinho. As latas de leite em pó desnatado que estavam, impecavelmente empilhadas, caíram sobre as hortaliças hidropônicas, amassando tudo, ela desfigurou. As garrafas de cervejas, do carrinho dele, colidiram-se com os enlatados e o barulho foi ensurdecedor. O supermercado parou por um instante, até o locutor se embolou, disse que o “litro” do camarão estava saindo a dez e noventa e nove.

- Não olha pra onde anda? – Perguntou rispidamente ela, empilhando novamente as latas de leite.

- Você não anda pra onde olha? – Rebateu ele, levantando as garrafas.

Ela, propositadamente, correu com os olhos no carrinho dele. Picanhas, linguiças, latas de sardinhas, várias cervejas e duas garrafas de vodka. Notou que a única coisa verde que pairava por ali, era o limão. Ele fez o mesmo, mas só reconheceu a alface no meio de tanto mato.

- Não tem nada vivo aí dentro? – Ele disse, ironicamente.

- Não, e pelo que vejo no seu, você também não durará muito.

Ele riu.

- É dieta?

- É suicídio? - Ela riu e, antes de partir, instintivamente, olhou para os dedos da mão dele.

Ele a observou por trás, ficou um tempo parado até que ela desaparecesse pelo corredor de perfumaria, depois ele seguiu para o caixa. A fila andou e quando ele colocava a última leva de cervejas na esteira, ela parou atrás dele, mas não o viu.

- Tenha cuidado ao estacionar o carrinho. – Indagou ao ar.

Ela atinou.

- Engraçadinho. – Respondeu apoiando a linhaça sobre o balcão.

Enquanto ele terminava de ensacar as compras, o celular dela tocou e ela prontamente atendeu. A caixa contabilizava, rapidamente, as compras e passava para frente as mercadorias a serem ensacadas. O telefonema durou o tempo exato pra ele escrever um bilhete e, junto com uma garrafa de vodka, ocultar numa das sacolas da mulher. Cedeu um adeus animado e ela respondeu com um sorriso sem graça.

O porteiro a ajudou com as compras, levou até ao apartamento. Ela o agradeceu com uma gorjeta e, assim que fechou a porta, se desfez da sandália e da calça jeans. Enfileirou as latas de leite no armário de cima, colocou os saquinhos de linhaça, num pote, em cima da bancada e quando guardava o material de limpeza debaixo da pia, encontrou a vodka. Balançou a cabeça em negação e a apoiou em cima da mesa. Juntou as sacolas plásticas que estavam espalhadas pelo chão e as enfiou dentro do puxa-saco.

23.11.09

Clau

No imenso jardim da casa grande, a jovem senhorita Adelaide caminhava a procura de joaninhas. Entre as plantas aparadas, artisticamente, pelo jardineiro, a jovem sorria para cada flor desabrochada e corria contra ao vendo para senti-lo na face. Os pássaros pareciam a rodear, todos cantavam felizes, afinados numa nota só. Um coelho branco, mesmo não sendo comum naquelas bandas, a acompanhava, sem receio algum, dando pequenos saltos. Quando encontrou uma joaninha pintada de bolinhas amarelas, foi interrompida pelo badalar do sino. Adelaide reconheceu a voz aveludada de Ataulfo, o criado, chamando-a para o almoço. Largou, desleixadamente, o vidro com as joaninhas no chão e correu para dentro de casa. Segundos depois:

- Chega pra lá, tira essa perna daqui.

- Alguém pode me desvirar?

- Estou sem ar. – Berrou uma das joaninhas.

- Lauro, por favor, sem ataquinhos caustrofóbicos agora. Os furinhos da tampa dão até pra gente passar, sobra oxigênio aqui dentro.

Depois de se ajeitarem, as seis joaninhas escaparam, uma a uma, por um dos buracos do pote. A joaninha, pintada de bolinhas amarelas, aguardava-as a cinco centímetros do local. Com o semblante de esperta, a joaninha danou-se a falar:

- Sim, minhas queridas, como sempre eu me safo. Vocês já sabem o motivo, não sabem? – A joaninhas ficaram reprimidas, já estavam acostumadas com o jeito da outra. - Tudo bem, as moçoilas não precisam me responder. Minha beleza é escancarada, estampada na cara... E por todo o meu corpo, certo? – Disse rodopiando e abrindo as asinhas.

- Claudinei você parece que vive o ano inteiro fantasiado, essas pintas.

- É inveja de vocês.

- Parece um dálmata. – Riram.

- Calem a boca. Vamos sair daqui antes que esse projeto de ser humano volte e nos sequestre novamente.

Quando tomavam o rumo de casa, a senhorita Adelaide, de repente, apareceu e ficou excitadíssima quando avistou a joaninha pintada de bolinha amarela. Não tardou, com as pontas dos dedos agarrou a joaninha pelas asas e a enfiou dentro do pote. Feliz, a menina foi embora saltitante para dentro de casa.

As seis joaninhas ficaram perplexas. Passaram semanas rezando para que nada a acontecesse, choraram, fizeram promessas e tentaram até montar um plano para resgatá-la, mas desistiram, seria muito perigoso para todas. Quando perderam as esperanças, já cansadas de tanto sofrimento, o Claudinei apareceu e estranhamente estava caminhando tranquilo pela redondeza. Esbaforidas, elas voaram para cima dela, abraçaram e a beijaram por um bom tempo.

- Você está bem? Algum ferimento?

- Que bom!

- Aleluia Senhor.

- Chegam pra lá suas doidas. Eu estou ó-t-i-m-a. Estava num SPA magnífico, digno de cinema. Não notaram que estou mais magra? – Deu uma pausa, rodopiou abrindo as asinhas e continuou. – E bem mais bonita que antes?

5.11.09

A promessa

Estava à beira da morte quando revelou pra filha o que havia prometido ao amigo há muitos anos atrás. Ela, de boca aberta, com lágrimas nos olhos, escutou cada detalhe, pasma. O pai contou que há dezoito anos, quando ela ainda estava na barriga da mãe, ele e Mauro, o amigo, viajaram para pescar. No segundo dia de pesca, quando ele foi urinar no meio do mato, uma imensa onça agarrou-lhe pelo pescoço. Sorte que o amigo acertou um tiro certeiro no felino e o tirou de uma dolorosa morte.

- Como assim pai? Minha virgindade? Você ofereceu o que eu tenho de mais puro para um homem que não conheço? Meu íntimo? Meu âmago?

- Filha. – Explicou o pai. – O Mauro salvou minha vida. – Eu não tinha nada de tão precioso a ceder, então cedi o que é mais puro na minha vida.

- Isso que o senhor ofereceu não é seu, é meu!

- Filha, você não me entendeu...

Depois de um gemido, o velho se foi sem terminar a frase. A mãe, quando soube que a filha já estava encomendada, morreu de desgosto. Com dezenove anos, sem dinheiro e de barriga vazia, Janice caiu, literalmente, de quatro no mundo. Desatarraxou a lâmpada da varanda e, no lugar, atarraxou outra, de cor vermelha. Estava aberta à perdição, entregaria ao primeiro homem o que era, há tempos, prometido a outro.

Logo na inauguração, a casa lotou. A empregada, Dona Teresa, vigiava o bar e, às vezes, fazendo papel de garçom, passeava pela casa carregando uma bandeja recheada de drinques. Oferecia, uma vez ou outra, um aperitivo cortesia para acalmar o nervosismo dos clientes, que ficavam ansiosos no aguardo da vez.

Janice, também ansiosa com a primeira vez, vestiu uma lingerie ousado, mas quando se deparou com o homem nu, relembrou da promessa do pai e ficou receosa. O homem que aparentava ter mais de sessenta anos sentiu o desconforto da moça e vestiu-se rapidamente.

- Não tenha medo, meu caro. – Disse ela. – Só preciso saber o seu nome.

- Gilberto.

Depois de Gilberto, vieram os Josés, Mários, Albertos e muitos outros. Janice descobriu, logo na primeira vez, que havia nascido para aquilo, era prazeroso e lhe rendia dinheiro. Com as portas e as pernas fechadas, fez a contabilidade do dia. Os olhos da empregada brilharam quando a moça Janice, agora mulher, fez a soma total e gritou, ao léu, o valor.

Decidiram contratar algumas garotas, colocaram um anuncio na frente de casa e estamparam num imenso painel os dizeres: “Vagas para mulheres que querem abrir o negócio”. Antes de baterem o último prego do cartaz, a fila já estava formada. Cinco garotas, jovens, belas e sem destino, completaram o espaço vago da casa. Janice era uma boa cafetina, além de pagar os honorários corretamente das moças, entregava cestas-básicas pra cada uma, dava folgas repentinas e sorteava valiosos presentes, as moças a adoravam. Depois de um ano de trabalho assíduo, Janice decidiu fechar de vez as pernas, sem fechas as portas e dar a maior atenção na administração do lugar. Controlava o bar, cobrava os devedores e expulsava os desordeiros.

Numa bela noite de lua, a cafetina estava na porta da casa quando um imenso carro estacionou. O vidro escuro da janela do veículo abaixou-se cuidadosamente. Em seguida, um homem com um rosto que Janice achou o mais perfeito do mundo, perguntou, com uma voz aveludada, sobre ela mesma.

- Sou eu. – Respondeu, ajeitando o decote, mesmo aposentada, Janice não perderia, por nada, um cliente lindo, limpo e cheio da nota.

- Podemos conversar?

Ela o chamou para entrar, mas ele optou que fossem para um lugar mais reservado. Entraram no carro e, por indicação de Janice, foram ao melhor restaurante da cidade. Sentaram num lugar bem reservado, o garçom, elegantemente, acendeu as velas e postou um balde de inox com uma garrafa de vinho sobre a mesa. Jean, assim que se apresentou, iniciou o assunto:

- Sou o único filho de Mauro, grande amigo de seu falecido pai, e viajei até aqui para lhe contar uma história, na verdade, uma promessa...

Foi interrompido com um banho de vinho no rosto. Janice bateu a taça de cristal com força na mesa, antes de mandá-los, pai e filho, para o inferno e fugiu do restaurante. Jean a alcançou no ponto de táxi, agarrou-a pelo braço e notou, apesar da maquiagem borrada pelas lágrimas, que ela tinha uma beleza, extremamente, exótica.

- Meu pai faleceu na semana passada.

Depois que ele fez o comentário, Janice relaxou e deixou ouvir, ele continuou:

- Minha família possui muito dinheiro, o tanto que você nem conseguiria imaginar. Antes de partir, meu pai, deixou uma carta me contando sobre a promessa feita pelo seu pai...

Ela tentou se safar, mas ele a segurou com força pelo braço.

- Como nasci, desculpe a falta de modéstia, em berço de ouro, meu pai, além de toda a grana que me deixaria, queria me entregar algo que eu nunca esquecesse. Alguma coisa que ficasse marcada, diferente e amplamente especial de todos os presentes que alguém poderia receber...

- É, mas já era. Vocês demoraram demais, já acabaram com ele.

- Eu o conserto.

- Ahm? Enlouqueceu? Vai me dizer que já existe plástica pra isso?

- Não plástica, mas existe cura.

- Cura?

Ajoelhou-se então, em frente à moça, e abriu uma caixinha preta. Janice sentiu o reflexo dos brilhantes nos olhos e só voltou a si, quando Jean a pediu em casamento.

- Casar?

- Sim.

- Posso ser tudo nesse mundo, mas não sou de iludir. Na verdade, tem um ano que não sou mais virgem...

- Não ligo.

- Jura? Olha que foi um ano bastante assíduo...

- Seu coração, como está seu coração? Vazio? – Perguntou ele ainda de joelhos.

- Neste caso... – Disse ela com os olhos brilhando. – Meu coração, como o prometido, estava à espera do prometido e se você demorasse mais um pouquinho ele seria canonizado pelo Papa, de tão virgem que é.