A cada segundo que passava, Talita olhava pra porta e, logo em seguida, pra carteira vazia de Júlio. Estava desesperada pra contar a novidade para o amigo. Seguia com aflição o desenrolar dos ponteiros do relógio.
- Bom dia gente. – Disse a professora, logo que fechou a porta.
Talita estava desacreditada, não teria paciência de esperar os quarenta e cinco minutos da aula com aquela fofoca agarrada na garganta.
- Professora, eu posso ir ao banheiro? – Arriscou.
- Você tinha tempo de sobra pra ir ao banheiro, beber água e o que mais quisesse fazer, agora só depois da prova. – Retrucou a professora com uma, clara, falsa felicidade.
Talita ficou possessa, o sol nem havia nascido por inteiro, todos ainda carregavam remela nos olhos e a professora com aquele sorriso esticado de uma orelha a outra, toda animada.
- Cínica. – Disse Talita entre os dentes.
Abominava aula de Educação Física, ainda mais as realizadas dentro da sala de aula. Olhou novamente pro relógio e os quinze minutos limite, que a professora cedia aos atrasados, estavam contando. Precisava contar tudo para Júlio, era uma questão de vida ou morte.
- Como todos já sabem, eu aplicarei uma provinha, com consulta, sobre as regras do Handebol. – Disse entusiasmada a professora. – Mas só na segunda aula.
- Ninguém merece! – Esbravejou Talita.
- Disse alguma coisa Talita?
- Eu? Não, Não.
Pensou em contar a Carlinha, mas aquilo, pra ela, não soaria como uma fofoca. O tempo passou, lentamente, mas passou. O sinal do primeiro tempo bateu e, graças a Deus, Júlio entrou pela porta. Talita suspirou fundo e ajeitou-se na carteira. Era sua hora. Ele, emburrado como todo dia, sentou-se na carteira.
- Júlio! Tenho um babado pra te contar.
- O quê?
- Você não vai acreditar... Sabe aquela menina...
Uma algazarra tomou conta do ambiente quando a professora pediu que arrumassem a sala para a prova. Carteiras se arrastavam por todos os lados como num estacionamento de shopping em véspera do Natal. A briga por vagas era tremenda, umas cinco pessoas queriam sentar atrás de Leonardo, o mais inteligente da turma. Talita dava cavalos de pau com a carteira tentando estacionar atrás de Júlio, não teve sorte, pois Rodolfo, melhor amigo de Júlio, já tinha estacionado.
- Rodolfo troca de lugar comigo.
- Não!
- Por favor, Rodolfo. – Implorou Talita.
- Quer sentar atrás do namorado? – Brincou Rodolfo, espalhando rapidamente pela sala.
O som das carteiras foi trocado por uma salva de zombarias.
- Está namorando... Está namorando... Está namorando...
- Namoradinhos... Talita e Júlio... Júlio e Talita...
- Vai casar... Vai casar...
- Beija... Beija...
- Chega! – Berrou a professora. - Todos em silêncio e sentados. Já estou entregando as provas.
Não teve jeito, as cadeiras ficaram equidistantes e Talita quatro cadeiras atrás de Júlio. O silêncio era quase total, abalado de vez enquanto por alguns engraçadinhos imitando barulho de flatulências.
Talita sussurrou o nome do amigo e Júlio olhou para trás. Ela mexia os lábios sem emitir som e não tirava os olhos da professora. Júlio mexia os ombros dizendo que não estava entendendo. Ela desistiu de tentar. Fez a prova de qualquer jeito, escreveu um bilhete, levantou e, quando caminhava até a professora, jogou o papel na mesa de Júlio. Entregou a prova e saiu da sala.
Júlio apavorou-se com o papel. Jogou o bilhete no meio das pernas, começou a suar frio. Tentava pegar o bilhete, mas a professora o olhava de rabo de olho constantemente. Disfarçava. Quando a professora foi até a mesa de outro aluno, ele retirou o bilhete das pernas e o colocou debaixo da prova. A professora foi atender outro aluno no fundo da sala e ele desdobrou-o papel uma vez, desdobrou a segunda, a terceira... – Para quê tantas dobras! – Pensava Júlio.
- Júlio me entregue esse papel agora! – Sentenciou a professora.
- Pa-pa-pel? – Gaguejou.
- Esse aqui. – Disse a professora puxando o papel debaixo da prova.
- Não é cola não professora.
- Sei, sei. Isso custará caro para o senhor.
Com a cara fechada, a professora começou a desdobrar o bilhete. Desdobrou uma, duas, três vezes... – Bem dobrado. – Pensou, também, a professora. Quando desdobrou a última parte, leu o que estava escrito: “Estou na cantina, te conto tudo lá”.

