28.9.09

Tradição familiar

Assim que pisou com o pé esquerdo no bar, Altamiro notou a estranha faceta do português, que passava, intensamente, o pano sujo no balcão. Olhou ao redor e presenciou, na maior tranquilidade, o exato momento em que a esposa selou um beijo na boca de outro homem. Altamiro encostou-se ao balcão, onde sempre estacionava a barriga, respirou fundo e pediu uma cachaça. Prontamente o português, desatarraxou a torneirinha do pequeno barril e encheu meio copo americano com a malvada. Virou de uma vez só e aterrissou com força o copo no balcão, Noêmia, a esposa, avistou-o.

- Amor! Você está aí? Esse daqui é meu primo, o Jorge. Lembra que já falei dele pra você?

Jorge era um sujeito estranho, vestia uma jaqueta de couro preta, carregava um imenso bigode e, entre os espessos pêlos da face, cobrindo toda a boca, Abelardo notou que havia batom, na cor vermelho sangue. A esposa, rapidamente, pegou o marido pelas mãos e levou até a mesa onde estavam.

- Primo, esse é o Altamiro, meu marido.

- Altamiro, esse é o Jorge.

Jorge levantou, sacou um pente do bolso de trás da calça jeans e passou vagarosamente pelo cabelo, antes de apertar a mão de Altamiro.

- Estou aformoseado com a sua preclara presença.

Altamiro desvencilhou-se das mãos do homem e, ressabiado, se afastou.

- Um segundo. – Disse indo de encontro ao balcão, deixando os dois para trás.

O português que estava a todo o momento observando a conversa, afoito, chamou Altamiro até ao fundo do bar.

- Estão se beijando desde a hora que chegaram. – Disse aos sussurros, com o sotaque mais carregado que o normal.

Altamiro passou a mão no rosto, tentando disfarçar a angústia.

- Eu escutei tudo. – Disse o gajo esbaforido. – Chamou-te de afeminado e de outro palavrão que não escutei muito bem.

O português, totalmente desnorteado, pegou uma escada velha de madeira e encostou-a numa estante. Subiu com dificuldade os degraus e esticou a mão para alcançar um pequeno frasco. Desceu devagar e entregou para Altamiro.

- O que é isso?

- É veneno de rato. – Exclamou o português. – Está fora da validade há anos. Duas gotinhas no copo e é tiro e queda. Acabe com isso de uma vez por todas.

- Endoideceu? – Perguntou assustado.

- Um homem estranho, beija sua mulher na boca e ainda te xinga dentro do bar que você frequenta há anos. Vira homem, homem. Dá um jeito nisso.

Altamiro enfiou o veneno no bolso e quando se aproximava da mesa da mulher, ela novamente beijou o homem. Dessa vez, justificou:

- Amor, o beijo na boca é comum na nossa família, sabia? Todo mundo faz isso. É uma forma de expressar carinho.

Altamiro fervilhou por dentro, aturava a infidelidade da mulher, mas a mentira ele não suportava.

- Um segundo, vou fumar um cigarro.

Minava de suor quando atravessou a porta do bar, caminhou de encontro à esquina e depois de exatos quinze passos, chamou um moleque de rua.

- Quer ganhar um trocado? – Perguntou trêmulo.

O menino assentiu com a cabeça e Altamiro explicou:

- Você deve pingar duas gotas no copo do homem de bigode que está sentado ao lado de uma mulher, entendeu? Mas eles não podem perceber.

O menino com um sorriso largo no rosto, pegou o frasco, o dinheiro e entrou no bar. O português notou o frasco que o menino tentava esconder embaixo da camisa e, na esperteza, chamou a atenção do casal.

- Vocês podem me dar uma pequena ajuda aqui? Segure isso aqui. – Disse o português entregando alguns pacotes na mão dos dois. – Vou pegar a escada lá no fundo do bar. Tenho que guardar isso na última prateleira.

O moleque, com bastante agilidade, esgueirou-se entre as mesas até chegar ao objetivo. Tirou o frasco da cintura, abriu e ficou na dúvida em qual dos dois copos seria. Não demorou muito pra perceber que um dos copos estava sujo de batom, não pestanejou e desperdiçou duas gotas no outro, o limpo. Noêmia, depois de uma breve golada, instantaneamente, espatifou-se no chão, contorceu e espumou até à morte.

A primeira pessoa que Altamiro encontrou no enterro da mulher foi Jorge. Estava com a mesma jaqueta preta e dessa vez com um batom menos chamativo. Fingiu que não o viu e foi até a beirada do caixão e, por alguns segundos, o recém viúvo, ficou contemplando o pálido rosto da mulher. Logo perdeu a atenção quando viu uma leva de parentes chegando ao local, todos foram recebidos com beijos na boca.

Altamiro sentiu um peso forte na consciência, precisava beber alguma coisa, resolveu sair e encontrar alguma birosca na redondeza. Foi quando a sogra segurou-o pelo braço e apresentou-o como o viúvo aos parentes que acabaram de chegar.

- Esse é Asdrúbal, o tio de Noêmia. – Apresentou a sogra. – Essa é Carlota, a tia. Esse é o Juninho, priminho caçula e essa é Manoela, a prima.

Altamiro olhou a jovem dos pés a cabeça. A moça tinha imensos e resistentes seios que escapavam salientes num apertado decote, a camisa, curta, deixava à mostra os pêlos dourados da barriga, a calça estava apertada e delineava todas as dobras das duas grossas coxas. Ele não resistiu, assim que ela deu-lhe os devidos pêsames, Altamiro pegou-a pelo pescoço e a beijou na boca.

- Mesmo com Noêmia não estando mais conosco, considero-me parte dessa família e não deixo a tradição de lado. – Disse forçando uma voz embargada.

Novamente ele agarrou a moça, dessa vez com mais força, e deu-lhe um longo e demorado beijo.

- Obrigado mesmo. - Concluiu.


25.9.09

Matilha Fantástica II

Acordei, fiz um café e sentei no sofá da sala. Era uma sexta-feira chuvosa e o silêncio, apesar do barulho dos carros na rua, governava, pois não havia ninguém em casa, todos os meus companheiros da república estavam na faculdade. Como não tínhamos TV à cabo, a programação matinal da TV aberta estava horrível, logo, pensei em outra coisa pra fazer.

Era umas dez da manhã quando entrei no bar e pedi uma cerveja. A loura, geladíssima, desceu licitamente pela garganta. Pedi uma porção de moela, pois o cozinheiro avisou que tinha cozinhado-a naquele momento. Foi a melhor parceira que minha cerveja encontraria àquela hora da manhã, lasquei-a de pimenta e salivei por uma cachaça.

- Do barril! – Solicitei ao Jorge.

Depois de seis garrafas, fechei a conta e fui embora. Precisava encontrar algum companheiro de copo e lá em casa, tinha três deles. Assim que cheguei, escutei o barulho do chuveiro, fui até a geladeira e peguei uma latinha pra esperar o dito cujo sair do banheiro, até então, eu não sabia quem era. Senti a bexiga cheia, a vontade veio com força, bati na porta.

- Anda rápido, quero mijar.

- Já estou saindo, estou tirando o xampu.

Eu não agüentava mais esperar, era meu amigo mais fresco no banho e tinha a certeza que ele demoraria mais uns vinte minutos. Corri pra cozinha e peguei uma garrafa de refrigerante de um litro, vazia. Não pensei duas vezes.

Quase entornou, mas tudo ocorreu bem. Lacrei-a e deixei num cantinho da área de serviço. Vinte minutos depois, meu amigo saiu do banho, conversamos e resolvemos voltar pro botequim. Esqueci da garrafa.

Horas depois, após garrafas e mais garrafas de cerveja, voltamos pro cafofo. Assim que abrimos a porta, eu avistei a garrafa “cheia” em cima da mesa do computador, com um pano de chão ao lado. Primeiro ri, mas parei quando a mãe do meu outro amigo nos cumprimentou.

- Essa casa está uma bagunça. – Esbravejou ela.

Rimos sem graça.

- Estou fazendo uma faxina. Que produto é esse aqui? – Perguntou ela pegando a garrafa com meu mijo.

Fiquei tenso e meu amigo, sem saber de nada, respondeu que deveria ser cloro.

- Cheirei e não tem cheiro de cloro. - Respondeu ela.

Eu tremi e tive que intervir.

- Não é cloro. Isso é um produto pra limpar tinta nanquim. – Aproveitei usando o meu curso de arquitetura.

- Se limpa nanquim, isso deve limpar tudo. – Ele exclamou alegre.

Tomei bruscamente a garrafa da mão dela, pois ela já estava pra entornar o mijo no pano.

- Nem pensar, isso é muito caro. É importado. Um litro custa cinquenta reais, quer dizer, dólares.

- Nossa que caro! – Disse ela, arregalando os olhos.

- 50 conto? Deixa eu cheirar isso. - Meu amigo, besta, tentou pegar a garrafa.

- Nada disso. Não pode ficar abrindo, pois evapora.

Fechei com força e carreguei pro meu quarto. Quando voltei, no corredor à caminho da cozinha, escutei a mãe do meu amigo falando:

- Perguntarei pra ele o nome daquele produto, minha sobrinha começará a faculdade de arquitetura e precisará de um desses. – Disse ela.

- A senhora terá que encomendar. – Explicou meu amigo. – É produto dos bons e importado.

9.9.09

O colecionador

Otacílio era um homem solitário, sem vícios, não tinha amigos e nem fazia questão. A notícia que deveria sair do apartamento onde morava chegou depressa e de repente. O dono, um italiano de sotaque carregado, avisou pelo telefone que a filha ficaria com o apartamento, depois que casasse. Otacílio morava a dez anos naquele lugar, conhecia os porteiros e todos os moradores, apesar de nunca ter falado com ninguém. Assim que colocou o telefone no gancho, abatido, tratou de encaixotar as coisas.

O caminhão de mudança, depois de três dias de arrumação, estacionou em frente ao prédio e os ajudantes ficaram perplexos quando viram as caixas arrumadas, simetricamente, uma ao lado da outra na sala do apartamento. Em cada uma estava escrito o que continha, onde ficava no velho apartamento e onde ficaria no novo. Os móveis todos desmontados e com os respectivos parafusos ensacados. Foi o trabalho mais fácil que fizeram. Horas depois, o caminhão, com toda a mudança, estacionou na porta do novo prédio.

Otacílio, com a indicação do antigo locador, encontrou facilmente outro lar, num canto mais ofuscado da cidade. Entrou no elevador, de grade corrediça, apertou o número dois e, rangendo, ele subiu vagarosamente. Enfiou a chave com dificuldade no miolo e, forçando com os pés, abriu-a. Era bem menor que o outro, mas por uma rápida análise viu que os móveis caberiam e ficariam postos como no antigo apartamento. Foi até a janela veneziana, puxou as duas portas de vidro para dentro e emburrou as de madeira para fora. Antes de olhar a vista, notou que o parapeito estava cheio de palitos de fósforo. Com as mãos, jogou todos para baixo. Em três dias, arrumou tudo e se tivesse amigos, eles achariam frequentar o mesmo apartamento.

Na primeira noite, teve dificuldade em dormir, portas batiam toda hora, havia movimentação constante no elevador e o botequim, da esquina, só fechou às cinco da manhã. Foi exatamente na hora em que se levantou e abriu a janela da sala, que notou, novamente, um monte de palitos queimados sobre o parapeito. Com o auxilio do espanador, Otacílio empurrou todos os palitos para fora.

Durante toda a semana, ele esbarrava com os palitos, mas como era recente no prédio, não quis reclamar, deixou de lado, para evitar brigas com a nova vizinhança. Depois, pensando melhor, parou de jogar os palitos para fora, começou a guardá-los numa caixinha, assim não incomodaria o vizinho debaixo e arrecadaria provas para uma futura reclamação.

Todos o dias ele juntava em média dez palitos, queria descobrir o mentecapto que arremessava os fósforos, não pra bater boca, mas apenas analisar a cara da pessoa e descobrir se é de pau ou de bobo. Quando entrava no elevador e encontrava com alguém, examinava a dos pés à cabeça.

Num sábado, pela manhã, quando abriu a caixinha para colocar mais palitos, notou que quase não cabiam mais. Foi até ao centro e, com sucesso, encontrou uma loja repleta de caixas, de todos os tipos e tamanhos. Comprou a mais parecida, aproveitou e levou duas pequenas trancas, com cadeados. Já em casa, pegou a chave de fenda na caixa de ferramentas e aparafusou a tranca nas duas caixas, fechou a que estava cheia, guardou-a na estante e colocou a nova, aberta, no lugar da antiga.

Domingo pela manhã, acordou e, como sempre fazia, abriu a janela. Estranhamente não havia nenhum palito. Passou a tarde inteira, sentado no sofá da sala, olhando para a janela aberta, mas nenhum palito caía. Segunda, Otacílio acordou bem mais cedo que o habitual e correu para abrir a janela, mas, para a tristeza dele, nada se empoleirava no parapeito.

Ficou aflito, foi até a cozinha e interfonou para a portaria, com um total estranhamento do porteiro, atrás de explicações. Foi avisado que o morador de cima havia mudado e que o apartamento ficaria um bom tempo sem locatário, pois entraria em reforma. Sentiu um vazio, imenso, dentro do vazio espesso que já vivia, pegou o jornal, abriu na página de imóveis e tachou alguns anúncios com a caneta. No outro dia, ligou para todos os corretores e marcou as visitas.

A primeira coisa que Otacílio fazia, assim que entrava no apartamento, era abrir a janela e, numa breve análise, virava para o corretor dizendo que não havia gostado, nem fazia questão dos outros cômodos. Passou por vários imóveis e utilizou repetidos corretores, alguns, de antemão, não queriam nem atendê-lo.

Otacílio partiu sozinho para os confins da cidade. Depois de duas horas dentro do ônibus, chegou num bairro esquecido pelo mundo, onde parou de frente a um imenso conjunto de prédios. A maioria dos apartamentos tinham janelas quebradas, varais de roupas dependurados, paredes pichadas por vândalos e um odor horrível, que ele sentiu assim que desceu do ônibus.

Caminhou até um homem, vestido com maus trapos, que varria uma imensidão interminável de sujeira e perguntou se haviam apartamentos vagos. O homem se identificou como o zelador do local e disse, com um sorriso sem dentes, que todos os apartamentos do térreo estavam vagos. Otacílio não precisou perguntar o porquê, pois assim que entrou no apartamento e abriu a janela deparou-se com os palitos de fósforos, bitucas de cigarros, cotonetes, preservativos, absorventes e outras coisas que não conseguiu identificar, tudo sobre o parapeito.

- Quando vence o aluguel? – Perguntou, instantaneamente, ao velho zelador.