31.8.09

Vícios, cascos e mentiras.



Com vergonha em devolver a quantidade de cascos de cervejas que pegamos emprestados no bar do meu bairro, resolvi, em pensamentos embriagados, inventar uma história pro dono. Chamei o camarada no balcão e disse que a mãe do meu amigo, - Aquele sentado ali. – Apontei. - vendeu recentemente um apartamento na Tijuca e estava se desfazendo das quinquilharias, inclusive vários vasilhames de cerveja, que estavam atravancando a estadia do novo dono. Depois da letra mandada, perguntei se ele estaria interessado nas garrafas. Ele aceitou. Subimos em casa, juntamos todos os cascos, quase quarenta garrafas, e entregamos. Naquele mesmo dia subimos com oito garrafas.

As oito se transformaram em catorze, em seguida, em vinte e duas, semana depois, tínhamos, novamente, quase dois engradados no estoque. A namorada dele, brava com aquele entulho lá, pediu para devolvermos.

- Mas e a vergonha?

– Devolve aos poucos. – Falava ela.

– Não dá certo. – Respondíamos. - Pois levamos aos poucos e pegamos aos montes.

Noutro dia, depois de algumas cervejas, tomei coragem e contei a mesma história: A mãe do meu amigo, outro apartamento vendido, as quinquilharias, garrafas e etc... Com uma cara de remorso, muito diferente da primeira vez, ele aceitou.

– Trás lá. – Disse ele.

Subimos outra vez, ensacamos os cascos e, felizes, entregamos. Quando saíamos aliviados do bar, ele nos deteve.

– É o seguinte, - Começou, em baixo tom e ainda com a cara de pesar – Sei que não tenho nada com isso e não devo me meter na vida alheia, mas esse probleminha que sua mãe tem com o álcool é igual ao que minha mãe teve. Começa com um apartamento, depois vai outro, depois vende o carro, a TV ela troca, acarretam as dívidas... Sabia que tem tratamento pra isso?

21.8.09

Vida privada

Apaixonada pelo marido, Dolores, mesmo com o diploma do magistério em mãos, resolveu abandonar a profissão e trabalhar apenas em casa, cedendo toda a atenção ao marido. A mulher era a dedicação em pessoa, assim que se levantava da cama, antes mesmo de qualquer coisa, abria todas as janelas da casa para o ar entrar e arejar o ambiente, o marido tinha uma rinite devastadora e com qualquer umidade ficava com o nariz entupido. Depois, sem pressa, vestida numa camisola transparente, atravessava o jardim e pegava o jornal na caixa de correios, a molecada da rua, em polvorosa, esperava esse ritual todos os dias.

Na casa dos quarenta, a senhora Dolores conservava dois lindos seios e uma traseira imensa, batizada na redondeza como caçamba, de arrastar multidões. Todo sábado, quando a rua principal era fechada para a feira, Dolores desfilava de um lado ao outro, escolhendo legumes e verduras mais frescos. No final das compras, de sacola cheia, parava em frente à barraquinha de coco e bebia, no canudinho, bem em frente ao boteco, três cocos inteiros. Os beberrões ficavam loucos, queriam ajudar com as sacolas de qualquer forma, mas ela sempre negava. Apaixonada e muito fiel ao marido, Dolores agradecia e seguia sozinha, balançando a caçamba pra casa.

Quando o relógio batia onze e meia, Dolores refogava o arroz e colocava-o para cozinhar. Separava a página de esportes do jornal e colocava-a em cima da pia do banheiro, bem ao lado do cigarro varejo e a caixa de fósforos.

Rubens batia o cartão sempre no horário exato. Tinha o privilégio de almoçar a comida da esposa todos os dias. Morava ao lado da fábrica e com cinco minutos de caminhada já estava em casa. Dava duas voltas na chave, tirava os sapatos na varanda e, sem cumprimentar a esposa, seguia direto pro banheiro. Rubens não conseguia usar o banheiro em nenhum outro lugar, só se sentia seguro no sanitário de casa, olhando os azulejos portugueses, que cobriam somente a metade da parede, e escutando o canto do trinca-ferro no quintal.

Depois do trabalho feito, Rubens cumprimentava a esposa com a cabeça e se sentava para almoçar. Entrava e saía de casa calado, pra ele, a hora das necessidades fisiológicas e da alimentação eram sagradas. Dolores nada perguntava, aceitava com respeito o silêncio do marido.

Os boatos que contornavam o bairro diziam que Rubens estava de caso com Virginia, faxineira da empresa no qual ele trabalhava, mas Dolores não acreditava nas fofocas da vizinhança e mantinha o matrimônio sem abalo. Até que um dia, o mundo perfeito de Dolores desabou. O marido, após algumas doses de cachaça, confirmou o caso extraconjugal e decidiu morar com a outra.

Os homens da vizinhança, desde então, não pararam de rodear a casa da desquitada. Todos queriam servir de alguma forma para a recém solteirona, mas Dolores não saía mais de casa. Depois de três dias trancada, agarrada ao terço e em lágrimas, escutou alguém bater à porta. De camisola transparente, caminhou e abriu a portinhola da porta. Era Rubens, banhado de suor e com um entranho pesar na face. Rapidamente ela abriu a porta.

- Aconteceu alguma coisa? – Perguntou assustada.

- Preciso cuidar da minha vida privada. – Disse ele, antes de correr para o banheiro.

Rubens continuou morando com Virginia, mas todos os dias, a desquitada Dolores, assim que colocava o arroz pra cozinhar, separava o jornal de esportes e o colocava em cima da pia, junto ao cigarro varejo e a caixa de fósforos. Ainda apaixonada, Dolores, sentia imenso prazer em não deixar outro homem cuidar da vida privada dela.

20.8.09

Bom dia

- Demitido? Como assim? A culpa não foi minha.

- Leandro, eu já te avisei que não gosto que coloquem a culpa nos outros, mesmo com provas. Não suporto isso na minha empresa.

- Não estou colocando a culpa em ninguém, apenas não sou o culpado.

- Se não foi você, foi alguém. Neste caso, você está colocando a culpa em outra pessoa. Pegue suas coisas e nunca mais pise na minha empresa.

Leandro, mesmo enfurecido, saiu da empresa com a cabeça em pé e, pendida pro lado esquerdo, o torcicolo com qual acordou pela manhã, ainda continuava. Uma chuva desabou assim que atravessou a rua em direção ao ponto de ônibus. Esperou meia hora até o primeiro ônibus surgir e lotado, ele não parou. Quarenta minutos depois conseguiu embarcar. Caçou uma janela livre no lado esquerdo, pois dessa forma a cabeça, entortada pelo torcicolo para o lado esquerdo, ficaria virada para a janela. Não foi feliz, sentou-se do lado direito, única janela vaga, e ficou com a visão do corredor do ônibus.

Fechou os olhos e tentou dormir. No ponto seguinte, o ônibus parou e embarcaram vários passageiros, lotou. Depois da grande confusão atrás de lugares, acalmaram-se e Leandro conseguiu relaxar. Minutos depois, o silêncio foi abordado por um bipe ininterrupto. Leandro respirou fundo. O barulho incomodante continuava sem cessar. Não aguentou, levantou e caminhou pelo corredor. O ônibus estava parado no congestionamento quando Leandro começou a falar.

- Por favor, não estou pedindo muito, apenas peço que o dono do celular, desse que está apitando incessantemente, desligue-o agora. Não estou num dia bom e... – Quando terminava a frase, começaram os comentários aleatórios entre os passageiros, nem todos escutaram perfeitamente.

- Já está pedindo as coisas...

- Ele tem problema, olha o pescoço dele.

- Vagabundo, não quer trabalhar e fica implorando esmola.

- Já vai o outro falar de igreja.

- Calem a boca. – Berrou. – Não estou pedindo dinheiro e nem vendendo nada. Apenas peço que o idiota do celular desligue-o agora.

- É assalto. – Disse um dos últimos passageiros. – Ele quer os celulares.

Começaram a esconder os aparelhos. Um homem fugiu pela janela. Uma senhora obesa desequilibrou, caiu na escada do ônibus e entalou, bloqueando a abertura da porta traseira. Um policial, à paisana, sacou a arma.

- Meu troco. – Gritou um homem quando viu o trocar escapulir pela porta da frente.

Os passageiros seguiram o mesmo rumo do trocador, trataram de sumir daquele lugar. Pulavam a roleta e escapavam pela janela. A senhora conseguiu se levantar, encaixou um mata-leão em Leandro e jogou, em seguida, o corpo pra frente, ele berrou de dor. O militar tirou as algemas da cintura e encaixou-as nos pulsos de Leandro.

Na delegacia, o policial relatou o ocorrido ao delegado e entregou os pertences do meliante. Com vários problemas na cabeça e um imenso caso nas mãos, o delegado nem prestou atenção no depoimento do soldado, assaltantes de ônibus eram constantes.

- Deixa-o passar uma noite atrás das grades. – Ordenou o delegado para o fardado de plantão.

Acendeu um cigarro e tratou de terminar o relatório que analisava, atenciosamente, antes de ser interrompido. O sossego mórbido, que durou pouco tempo, foi interrompido por um bipe. O delegado reteve a atenção e continuou analisando o caso. Outro bipe. Parou e olhou ao redor. Mais um bipe. Procurou, pensou um pouco, enfiou a mão no bolso e pegou o celular. Não era o dele. De repente, avistou um celular estranho sobre a mesa. Lembrou que eram os pertences do pivete. Pegou-o, abriu o flip e nele uma mensagem não lida:

“Lê, me desculpa, mas eu não quero me envolver com ninguém agora. Bjs Carla”.

11.8.09

Matilha Fantástica I

Quatro garrafas de rabo-de-galo feitas e a mãe do meu amigo tocou o interfone da república. Apareceu lá, com mais alguns parentes, de surpresa. Quinta-feira e estávamos nos aprontando para uma festa na faculdade. Meu amigo, pregando de santinho, pediu que escondêssemos todas as bebidas. Colocamos, uma por uma, numa mochila. A mãe entrou no apartamento e, com o dom de toda mãe, notou um ar estranhíssimo na república. O silêncio pairou.

- Vocês estão de saída? – Perguntou.

- Estamos. – Respondemos instantaneamente.

Como nos conhecíamos muito bem, rapidamente entramos num acordo, íamos os três pra faculdade. Tudo bem que eu estudava à noite, em outra faculdade, e o sol queimava com o ponteiro marcando duas da tarde. Quando há mentira, há satisfação e a minha durou muito. Falei e enrolei tanto que meu amigo se intrometeu, mandou que eu parasse de falar, pois aquela não era a minha mãe. Depois do meu prestar de contas com a matriarca alheia, meus outros dois amigos deram-lhe também as devidas satisfações. Todo mundo pra faculdade, cada um na sua, duas horas da tarde numa quarta ensolarada? – Há algo de estranho no reino da Matilha Fantástica. - Creio que ela não acreditou, mas fomos e ela por lá ficou, dando jeito, na bagunça da república, que nunca tinha jeito.

A mochila, com as águas-de-fogo, era trocada, de tempo em tempo, entre os álcoois-participantes, dividíamos fraternalmente o peso. No interior dela, além das quatro garrafas de dois litros, tinham também um saco com sal, limões e uma imensa faca. Ingredientes que, no local da festa, transformariam no famoso cú-de-mula. Isso, claro, torcendo para não encontrar com a polícia no meio do caminho. - Como explicaríamos um saco cheio de pó branco e uma imensa arma branca?

Sem problemas com fardados no caminho, chegamos vivos ao local da guerrilha. Limão, sal, pinga e goela. Limão, sal, pinga e goela. Limão, pinga e goela. Limão e goela. Argh! Pinga, pinga, pinga...

Demorou bastante pro imenso carro de som surgir no campus da faculdade. Era o que faltava pra animar a festa, um trio-elétrico baiano, aquele originado por Dodô e Osmar. Estávamos num grande espaço e a carreta deveria manobrar pelo gramado, com muita lama, até o mais próximo possível da multidão. Eu, embriagado, resolvi ajudar o caminhoneiro na ousada manobra.

- Vem, vem... Isso... Desfaz o jogo... Vem... Joga tudo pro lado... Desfaz... Des-faz... Ih...

Pronto, juro que foi sem querer, mas atolei a imensa carreta no barro. Não andava pra frente, quiçá pra trás. Ficou quase um quilômetro longe das barraquinhas que distribuíam cerveja. O caminhoneiro ficou bravo e logo que enxerguei a circunferência do bíceps do caboclo, rapidamente me misturei ao público.

A festa continuou mesmo com o som afastado. Eu gostei, pois o funk e o axé tocou há mil metros de onde estávamos. Assim que o sol tratou de ir embora, nós fizemos o mesmo. Fomos até ao ponto do ônibus e esperamos ansiosamente a condução. Tempo depois, ela chegou lotada de jovens bêbados. Quando estávamos prestes a “tentar” atravessar a roleta, sentimos falta do meu amigo.

- Para o ônibus! – Gritou meu grande amigo, o maior. – Meu outro amigo sumiu! Espera um pouco, “motô”.

Confusão feita. Meu amigo pulou pra fora, postou-se na frente do ônibus e abriu os braços.

- Aqui ninguém passa.

O motorista buzinava sem parar. O calor estressou os passageiros que, consequentemente, começaram com uma revolução no veículo.

Meu amigo, para esfriar os ânimos da galera, começou com algumas acrobacias na frente do ônibus. Virou cambalhota, exercitou um polichinelo e arriscou uma estrela, totalmente desengonçado. Os passageiros relaxaram e, logo depois, estavam rindo e aplaudindo meu louco amigo.

Desci para ajudar, não com as acrobacias, mas sim para bloquear a passagem do ônibus, meu amigo enlouquecido já estava do outro lado da rua fazendo os estranhos movimentos.

De repente, o caminhoneiro atolado, que passava perto do local, avistou aquela louca confusão e me reconheceu quando, ainda na frente do ônibus, eu balançava os braços. Sorte que eu o vi e me afastei. Por incrível que pareça, o objetivo dele não era meu pescoço e sim o motorista do ônibus.

- Não deixa esse louco manobrar o ônibus. – Berrou o caminhoneiro para o motorista. – Esse filho da mãe atolou meu caminhão e não atolará a minha única condução pra sair daqui.

Deixei a condução partir, pois não ficaria dentro daquele ônibus com o caminhoneiro troncudo e, além do mais, meu amigo continuava desaparecido. – Isso... Eu achava. – Pois quando olhei pro lado, estavam lá, meus dois grandes amigos, fazendo estranhíssimas acrobacias.

5.8.09

Todo pai é cego

Sonhava com um menino, macho, de saco roxo, pra soltar pipa, rodar pião e chutar bola na rua. Deus, digitando certo com caracteres tortos, cedeu-lhe uma mocinha de cachinhos dourados e olhos doces, uma beleza. Nem ligou.

Passou o final de semana pintando e, trocou o azul do quarto pelo lilás. A filhinha saiu da maternidade com as orelhas furada e vestida com um conjuntinho pagão de cor rosa. Batizada pela mãe como Laís, a mocinha virou o xodó do pai, um babão.

Tempinho depois, matriculada na escolhinha, arrumou vários amiguinhos, inclusive meninos, para o desconforto do pai machão e ciumento.

- Minha filha só namora depois que terminar todos os estudos. – Bradava o pai.

- Até parece. – Caçoava a mãe. – Ela já anda de mãos dadas com o Caio Alves.

Sempre furioso, o pai não respondia assuntos de namoradinhos. Não gostava desse tipo de conversa.

Na terceira série, ainda na mesma sala que Caio, Laís comentou, inocentemente, em casa que estava namorando o amiguinho. Foi nesse momento que o babão teve o primeiro ataque de ciúmes. Gritou, berrou e cuspiu palavrões. A menina entornou em lágrimas e, também pela primeira vez, se trancou no quarto, hibernou.

- Larga de ser trouxa. – Retrucou a mãe. – É namorico de criança.

Depois, lá com os botões dele, o pai concordou que era bobeira aquela preocupação e decidiu relaxar, pois afinal eram apenas crianças. Relaxou pouco, pois rapidamente veio a puberdade, cresceram os seios, empinaram as nádegas e as coxas tornearam-se. A menina virou mocinha.

- Ficando? Como assim? – Perguntou aos berros o pai.

- É! Isso é normal entre os jovens. – Respondeu a mãe lavando calmamente as louças. – Estalinhos, abraços, cinema e sorvetinho na praça, essas coisas. Esqueceu que já fizemos isso um dia?

Saiu possesso de casa. A caminho do trabalho, o pai ciumento, pensou e resgatou em lembranças os primeiros relacionamentos. Ele sempre foi educado, gentil e respeitoso com as mulheres, mas - Pensava ele. – E esses meninos de hoje? Nesses tempos modernos...

- Não aceito homem nenhum dentro da minha casa. – Rosnava o pai, com a cara cheia de chope. - A Laís nem é doida de aparecer com macho aqui. Eu quebro os dois de paulada.

Mês seguinte, no sofá da sala, Laís e o namorado, Pablo, num grude só, assistiam uma comédia romântica. O pai, sentado na cadeira da varanda, de rabo de olho, ficava à vigília, sem piscar.

- Homem bobo. – Indagava a mãe.

Meses depois.

- Nem se o Papa pedir. – Gritava novamente o pai. - Namorado dormir aqui já é um abuso. Dormir não e ponto final.

- Mas pai...

- Não, e não! E não se fala mais nisso. Manda esse Pablo caçar o rumo de casa.

A menina, já com a carteira de motorista na bolsa, não bateu boca e a mãe, que escutava tudo da cozinha, estranhou. Chamou a filha.

- Laís, meu amor, nem insistiu direito com o seu pai. Não vai fazer nenhuma besteira, não é?

- Nada mãe. Eu só não insisti, pois se ele não deixou o Pablo, não aceitaria o Guilherminho nem à cacete.

- Guilherminho? – Perguntou a mãe, sem entender.

- É. Meu novo namorado.

Tempo depois, o Guilherminho estava lá, espichado num colchão na sala. O pai liberou a hospedagem do namorado em qualquer lugar da casa, e é claro, longe do quarto da filha.

No novo ano a filha viajou sozinha com o namorado, mesmo sem o consentimento do pai. Também no carnaval, semana santa e nas férias de inverno. Dentro de pouco tempo, no armarinho do banheiro social, jazia a escova de dente vermelha de Guilherminho.

A bomba.

- Grávida? Eu mato esse filho da mãe. – Berrou aos quatro cantos.

Duas semanas depois, o pai emocionado entrava de braços dados com a filha no tapete vermelho da igreja. Lua de mel, apartamento alugado e móveis novos. Nove meses depois nasceu a netinha, uma moçinha de cabelos dourados e olhos belos, uma belezinha, chamada Alice. O pai, agora avô babão, sorria mostrando todos os dentes com a netinha no colo, uma felicidade só.

Tempinho depois, antes mesmo de Alice entrar pra escolinha, o jovem pai sentenciou:

- Minha filha só namora depois que terminar todos os estudos.

4.8.09

Festival do Chope

Embarcamos no ônibus intermunicipal com destino ao festival do chope. No trajeto, dentro da condução cata-jeca-caída-aos-pedaços, nós engatamos numa limonada carregada com vodka, para acordar o fígado. Duas horas embarcados, fumando “quase” escondido no banheiro e bebendo pelos corredores, chegamos à pequena e pacata cidade de Passa Vinte, já tumultuada de turistas embriagados.

Tratamos de colocar nossas bagagens na casa de algum conhecido e fomos à luta. Compramos um canecão do festival e o chope, milagrosamente, ficou gratuito... - e sem limites -. Como eu e meus amigos levamos a bebida a serio, ficamos em êxtase.

Com o estômago forrado apenas pelo pão matinal, rapidamente as moléculas de etanol tomaram conta dos nossos corpos e a doideira reinou. Risos, tropeções, gargalhadas, cantadas, brincadeiras de mau gosto e muito papo durante todo o dia. Até que, quase à noitinha, os mais fracos começarem a desistir da guerra. Refrigerantes e coxinhas começaram a surgir no meio das inúmeras barracas de bebidas alcoólicas. Qualquer beirada era motivo pra encostar a enganar o cansaço. Alimentados e quase bem dispostos, depois daquela carga na bateria, começamos com outra bateria nas bebidas. Com o tonel de chope seco, fomos pro outro lado atrás dos destilados.

Vapt-vupt, entre goles e cambaleadas, a noite acabou. Alguns dos meus amigos, que pegariam o último ônibus, perderam-no. Tínhamos uma barraca de quatro lugares para sete homens, todos bêbados. - Armá-la? Onde? - Eis a questão. - Na praça? Bem que tentamos, mas a polícia não deixou. - No meio do mato escuro? - Nem pensar. - Até que tivemos a feliz ideia de acampar nos fundos da casa do nosso conhecido. Ficamos horas e horas montando a barraca, varetas pra lá, varetas pra cá. Não parecia uma barraca. - É iglu? - Não. É aquela normal, de índio. – Índio é você que não sabe montar esse troço. - Puxa aqui, segura e amarra. Não parecia uma barraca. – Desistimos. - Mesmo com algumas varetas sobrando, a barraca ficou quase em pé. – Como num carro de palhaço, fomos entrando, um por um. – Coube? – Quase.

Não limpamos o chão antes de armar a barraca, por isso dormimos em cima de pedras, galhos e outras tralhas que incomodaram nosso sono durante toda a noite. Com a minha cabeça apoiada numa lajota e o sono quase chegando... Soltaram uma flatulência. - Porra! – Não fui eu. – Se defendeu meu amigo de maior diâmetro. – Caralho. – Saímos todos da barraca. – Sem gases agora, tudo bem? Lá dentro já falta oxigênio. – Trato feito, sem peidos.

Lembro que eu estava tranquilo e sonhando, quando de repente, meu amigo, o menos normal, gritou: - Trem! Olha o trem! Montamos a barraca em cima da linha do trem. Corre gente! – Acordei com os olhos esbugalhados e escutei um “tic-tac-tic-tac-piuí...” se aproximando velozmente. Pulamos fora da barraca e o som já estava ensurdecedor. Observamos pálidos, trêmulos e aterrorizados o trem passar a poucos metros da barraca, que quase levantou vôo. Não digo que nos abraçamos, não estávamos mais bêbados. Apenas tivemos um mesmo e curto pensamento, algo como: Ufa!

Assim que o trem sumiu entre as montanhas, meu amigo, o mais lesado, saiu de dentro da barraca - Ninguém sentiu a falta dele – E bravo, vociferou: Vocês estavam saindo sem me chamar?

Dei uma golada na dormida vodka e abrimos num boteco da pequena e pacata cidade de Passa Vinte.

3.8.09

O amar de Maria do lar

Não era um lar diferente dos normais. Na sala, um sofá de três lugares, duas poltronas, mesinha de centro e um móvel aparador com a televisão. No banheiro, o vaso, a pia, um espelhinho e o boxe com o chuveiro elétrico, o básico. Na cozinha, um fogão de quatro bocas, um microondas, uma cafeteira preta e uma imensa geladeira, com o congelador separado. No quarto, a cama de casal, dois criados mudos e um guarda-roupa de porta corrediça. O apartamento de Célio e Maria era normalmente decorado como os demais apartamentos de recém-casados.

Apesar da formação superior quase completa, Maria fez questão de não trabalhar fora, largou tudo e se tornou dona do lar, - Com todo o prazer. – Adorava citar em frase quando falavam sobre esse assunto. Queria mesmo era cuidar do marido e dos filhos. Célio, o marido, passava a maior parte do dia fora de casa, trabalhava numa agencia de publicidade e a noite cursava o mestrado. Sempre teve a vida muito paparicada pelos pais, por isso resolveu juntar os trapos com a noiva antes mesmo de terminar os estudos extracurriculares, tudo para sair logo da barra da saia da mãe.

Seria um casal comum, um pouco retrógrado talvez, mas normal, se não fosse pelo extremo marianismo que a esposa sofria. Maria glorificava demasiadamente a maternidade e os valores morais da família, tomava as rédeas de tudo dentro das quatro paredes e servia de submissa aos desejos do marido, mesmo quando ele não os desejava. Célio não percebeu a síndrome excepcional da esposa antes do casamento, a achava apenas prestativa ao extremo, só notou a paranóia na primeira semana de casado.

O marido, certo dia, encontrou a camisa de trabalho muito amarrotada, pegou a tábua de passar ao lado da geladeira e ajeitou-a no centro da sala para passar a camisa. Maria, lá do quarto, escutou a movimentação do marido e rapidamente se levantou. Ainda descabelada, empurrou-o pro lado e disse que passar roupa era função de mulher. O marido tentou argumentar, mas foi em vão.

Na mesma noite, quando resolveram jantar fora, Célio, depois de chamar o táxi, abriu uma das portas do carro pra esposa entrar e ela, intempestivamente, abriu e entrou por outra. Ele entrou no carro como se nada tivesse acontecido, passou o braço sobre o ombro da esposa e ficou calado. Na mesa do restaurante, a mesma coisa, ele puxou uma das cadeiras e Maria sentou-se em outra. Foi nesse momento que Célio se preocupou e analisou. Apavorado com a situação, resolveu contar pra alguém e, de primeira, lembrou do pai.

- Que ótimo! – Disse o pai com clara alegria. – Deu sorte filhão, ainda bem que você não arrumou uma chata como a sua mãe...

Célio preferiu não escutar os conselhos do pai e correu pra mãe.

- Que ótima norinha é a minha. – Disse a mãe, também com os olhos brilhando. – Bom que ela cuida muito bem do meu filhinho. Pedi muito à Deus....

Ele saiu e deixou a mãe falando sozinha. Foi procurar Carlão, o amigo fanfarrão que já havia passado por quatro casamentos.

- Nossa! – Exclamou o amigo em êxtase. - Essa é a melhor raça de mulher. Aceitam até amante, sabia?

Célio desistiu de conselhos e parou num boteco, um belo pé sujo, bem perto da nova casa, o qual nunca havia frequentado. Resolveu afogar as mágoas. Pediu uma cerveja e o dono do bar percebendo que se tratava de um novo cliente, puxou assunto. Depois de algumas cervejas e contar toda a história, Célio foi apresentado ao grande Telmo.

Ex-psicólogo, ex-corno, ex-marido e expulso dos Alcoólatras Anônimos, Telmo tinha uma centenária e quase anormal experiência de vida. Carregava a fama de resolver qualquer tipo de problema, do matemático ao problemático, do filho macho aflorado à filha fêmea destrambelhada. Depois que Célio contou novamente a história nos mínimos detalhes, Telmo logo veio com a resolução do problema.

- Simples e fácil. Você deve ser mais machista, contar piadas escrotas e agir como um leão de chácara.

Célio não pensou em outra forma, a não ser, seguir à risca o que o grande Telmo indicou. Assim que entrou em casa, sem limpar os sapatos, se jogou no sofá e ordenou que a esposa fritasse alguns torresmos. Ela fritou sem reclamar e ainda o serviu com uma cerveja estupidamente gelada.

- Meu amor, você sabe qual é a melhor parte do sexo oral?

- Não sei. – Respondeu rapidamente a mulher.

- Dez minutos de silêncio. Aliás, é o único modo de calar sua boca. – Riu.

Assim que terminou a cerveja, Maria trouxe outra. Fritou lingüiça e fatiou o pão francês. Célio, que não fumava, acendeu um cigarro de palha e bateu a cinza no chão. Entornou a cerveja no piso encerado e limpou a mão engordurada na manta do sofá.

- Sabe o que aconteceu com o homem que finalmente entendeu as mulheres?

Ela balançou a cabeça negando.

- Morreu de rir antes de conseguir contar pra alguém. – Respondeu aos gargalhos.

- Qual a diferença entre a mulher e a maquina de lavar roupas? – Perguntou.

Ele não esperou uma resposta e disse:

- A mulher também lava louças.

Bastante embriagado, agarrou a esposa pelos braços e a despiu por inteiro. Pegou-a nos braços e levou até o quarto. Arrancou a roupa de qualquer jeito e pulou em cima da mulher. Não deixou que ela falasse durante todo o ato, tomou conta das posições e velocidades, até cedeu uns tapas. Terminou, virou para o lado e desmaiou.


Acordou com a boca seca e a esposa não estava mais do lado. A cabeça latejava, levantou para beber água e no caminho notou que a mesa da sala estava posta com um imenso café da manhã. Não estranhou, continuou o caminho e quando alcançou a geladeira avistou um bilhete pendurado:

“MEU MACHO MOR, fui ao supermercado e já volto. O café está na mesa. Beijos e te amo”.