Sentia vontade de sumir daquele lugar, largar o trabalho e a obrigação chata de andar com cartão de acesso da empresa pendurado no pescoço. Queria desaparecer de casa e deixar de vez a amargosa esposa, que, pra ele, era o maior problema. Não precisava nem carregar os trapos, deixaria tudo pra trás, viveria como um andarilho, de um canto ao outro, mas querer não era poder, até mesmo na vida de Cândido.
Ele tinha obrigações e manias, tornando o cotidiano algo inalterável. Criava dois canários da terra numa gaiola herdada do avô e eram como filhos. Sempre escolhia o alpiste mais fresco no mercadinho de Seu Alaor para dar aos pássaros e aproveitava para comprar uma pequena quantia de fumo de rolo.
Criava, também, um cachorro chamado Astolfo, que só se alimentava de restos de comida, e, por esse motivo, ocasionava, quase sempre, um odor medonho nas fezes. Levava-o para passear todos os dias, bem cedo, antes mesmo do nascer do sol, e esperava, calmamente, levantarem as portas da padaria. Sempre comprava um maço de cigarros, fumava um dos cigarros e bebia uma média fervente. Era o tempo necessário de sair a primeira, e fresca, leva de pães.
Nos finais de semana era de praxe, Cândido, depois que entregava o pão em casa, saía novamente e parava no boteco do bairro. Entre doses homeopáticas de cachaça e tulipas de chope, ficava apoiado no balcão até a hora do almoço. Comia um mexido e deitava atravessado na cama, dormia até as três, após o café preto, sem açúcar, da tarde, retornava ao bar onde se estendia até a noite.
Foi numa dessas, num sábado nebuloso, que Cândido, depois de tomar todas, tomou o rumo contrário ao de casa. Sacou metade da poupança, deixando a outra pra esposa, comprou uma passagem rodoviária qualquer e seguiu viagem. Fez baldeações e mais baldeações, pediu caronas e numa beira de estrada, a norte do país, comprou, na pechincha, uma velha camionete azul. Cortou várias cidades até o inerente veículo, caprichado de quilômetros, enguiçar, a norte do norte, numa pequenina cidade.
Hospedou-se na pensão por duas semanas e, com a frequencia assídua no bar, aliás, o único do lugar, rapidamente arrumou um emprego. Cândido tinha como ofício a marcenaria, fez-se profissional através de um curso pelo correio e, por dom, inventou variadas técnicas para trabalhar com madeiras.
Com um ano de trabalho, arrendou um terreno, construiu uma bela casa, refez todo o enxoval e encheu o guarda-roupa com roupas novas. Pendurou uma gaiola de aço com um canário, agora Belga, que comprou de um peão errante, num prego saliente da varanda. Ganhou do patrão um jovem cachorro vira-latas que, de primeira, o nomeou de Ulisses.
Todo o dia cinco do mês, Cândido pagava, em dinheiro vivo, os quilos de alpiste e as lascas de fumo de rolo que pendurava, durante o decorrer do mês, na venda. Nas manhãs, ele adorava dizer as moças da padaria, que nunca, na vida inteira, havia bebido uma média tão saborosa. Arlete, uma das atendentes, que adorava os elogios do homem, bem que tentou uma aproximação o enchendo de elogios, mas Cândido a cortava e dizia que não era um homem ligado a rotina, não estava preparado para a vida regrada de casado. Cândido era um homem feliz, mas ficaria bem mais se tivesse de volta a gaiola de madeira herdada do avô.


4 comentários:
"Hum..., tah qerendo me enganar, eh?!"
Ótimo Thiago! Pequenos objetos, grandes nostalgias... aspectos inexplicáveis da vida.
E obrigado por sua visita na TRIBUNA. É sempre bem-vindo.
Abraços.
Gostei .
=]
Vc é sempre surpreendente em seus textos. Mas n iluda uma gata-com-problema. olha que eu me apaixono...
cheiro!
Postar um comentário