Não foi no primeiro olhar, foi no primeiro esbarrão. Final de semana, supermercado cheio, bem na esquina dos laticínios com o açougue, o baque foi grande, carrinho com carrinho. As latas de leite em pó desnatado que estavam, impecavelmente empilhadas, caíram sobre as hortaliças hidropônicas, amassando tudo, ela desfigurou. As garrafas de cervejas, do carrinho dele, colidiram-se com os enlatados e o barulho foi ensurdecedor. O supermercado parou por um instante, até o locutor se embolou, disse que o “litro” do camarão estava saindo a dez e noventa e nove.
- Não olha pra onde anda? – Perguntou rispidamente ela, empilhando novamente as latas de leite.
- Você não anda pra onde olha? – Rebateu ele, levantando as garrafas.
Ela, propositadamente, correu com os olhos no carrinho dele. Picanhas, linguiças, latas de sardinhas, várias cervejas e duas garrafas de vodka. Notou que a única coisa verde que pairava por ali, era o limão. Ele fez o mesmo, mas só reconheceu a alface no meio de tanto mato.
- Não tem nada vivo aí dentro? – Ele disse, ironicamente.
- Não, e pelo que vejo no seu, você também não durará muito.
Ele riu.
- É dieta?
- É suicídio? - Ela riu e, antes de partir, instintivamente, olhou para os dedos da mão dele.
Ele a observou por trás, ficou um tempo parado até que ela desaparecesse pelo corredor de perfumaria, depois ele seguiu para o caixa. A fila andou e quando ele colocava a última leva de cervejas na esteira, ela parou atrás dele, mas não o viu.
- Tenha cuidado ao estacionar o carrinho. – Indagou ao ar.
Ela atinou.
- Engraçadinho. – Respondeu apoiando a linhaça sobre o balcão.
Enquanto ele terminava de ensacar as compras, o celular dela tocou e ela prontamente atendeu. A caixa contabilizava, rapidamente, as compras e passava para frente as mercadorias a serem ensacadas. O telefonema durou o tempo exato pra ele escrever um bilhete e, junto com uma garrafa de vodka, ocultar numa das sacolas da mulher. Cedeu um adeus animado e ela respondeu com um sorriso sem graça.
O porteiro a ajudou com as compras, levou até ao apartamento. Ela o agradeceu com uma gorjeta e, assim que fechou a porta, se desfez da sandália e da calça jeans. Enfileirou as latas de leite no armário de cima, colocou os saquinhos de linhaça, num pote, em cima da bancada e quando guardava o material de limpeza debaixo da pia, encontrou a vodka. Balançou a cabeça em negação e a apoiou em cima da mesa. Juntou as sacolas plásticas que estavam espalhadas pelo chão e as enfiou dentro do puxa-saco.


1 comentários:
Hahaha
A melhor!
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