6.10.09

O segredo de Talita.

A cada segundo que passava, Talita olhava pra porta e, logo em seguida, pra carteira vazia de Júlio. Estava desesperada pra contar a novidade para o amigo. Seguia com aflição o desenrolar dos ponteiros do relógio.

- Bom dia gente. – Disse a professora, logo que fechou a porta.

Talita estava desacreditada, não teria paciência de esperar os quarenta e cinco minutos da aula com aquela fofoca agarrada na garganta.

- Professora, eu posso ir ao banheiro? – Arriscou.

- Você tinha tempo de sobra pra ir ao banheiro, beber água e o que mais quisesse fazer, agora só depois da prova. – Retrucou a professora com uma, clara, falsa felicidade.

Talita ficou possessa, o sol nem havia nascido por inteiro, todos ainda carregavam remela nos olhos e a professora com aquele sorriso esticado de uma orelha a outra, toda animada.

- Cínica. – Disse Talita entre os dentes.

Abominava aula de Educação Física, ainda mais as realizadas dentro da sala de aula. Olhou novamente pro relógio e os quinze minutos limite, que a professora cedia aos atrasados, estavam contando. Precisava contar tudo para Júlio, era uma questão de vida ou morte.

- Como todos já sabem, eu aplicarei uma provinha, com consulta, sobre as regras do Handebol. – Disse entusiasmada a professora. – Mas só na segunda aula.

- Ninguém merece! – Esbravejou Talita.

- Disse alguma coisa Talita?

- Eu? Não, Não.

Pensou em contar a Carlinha, mas aquilo, pra ela, não soaria como uma fofoca. O tempo passou, lentamente, mas passou. O sinal do primeiro tempo bateu e, graças a Deus, Júlio entrou pela porta. Talita suspirou fundo e ajeitou-se na carteira. Era sua hora. Ele, emburrado como todo dia, sentou-se na carteira.

- Júlio! Tenho um babado pra te contar.

- O quê?

- Você não vai acreditar... Sabe aquela menina...

Uma algazarra tomou conta do ambiente quando a professora pediu que arrumassem a sala para a prova. Carteiras se arrastavam por todos os lados como num estacionamento de shopping em véspera do Natal. A briga por vagas era tremenda, umas cinco pessoas queriam sentar atrás de Leonardo, o mais inteligente da turma. Talita dava cavalos de pau com a carteira tentando estacionar atrás de Júlio, não teve sorte, pois Rodolfo, melhor amigo de Júlio, já tinha estacionado.

- Rodolfo troca de lugar comigo.

- Não!

- Por favor, Rodolfo. – Implorou Talita.

- Quer sentar atrás do namorado? – Brincou Rodolfo, espalhando rapidamente pela sala.

O som das carteiras foi trocado por uma salva de zombarias.

- Está namorando... Está namorando... Está namorando...

- Namoradinhos... Talita e Júlio... Júlio e Talita...

- Vai casar... Vai casar...

- Beija... Beija...

- Chega! – Berrou a professora. - Todos em silêncio e sentados. Já estou entregando as provas.

Não teve jeito, as cadeiras ficaram equidistantes e Talita quatro cadeiras atrás de Júlio. O silêncio era quase total, abalado de vez enquanto por alguns engraçadinhos imitando barulho de flatulências.

Talita sussurrou o nome do amigo e Júlio olhou para trás. Ela mexia os lábios sem emitir som e não tirava os olhos da professora. Júlio mexia os ombros dizendo que não estava entendendo. Ela desistiu de tentar. Fez a prova de qualquer jeito, escreveu um bilhete, levantou e, quando caminhava até a professora, jogou o papel na mesa de Júlio. Entregou a prova e saiu da sala.

Júlio apavorou-se com o papel. Jogou o bilhete no meio das pernas, começou a suar frio. Tentava pegar o bilhete, mas a professora o olhava de rabo de olho constantemente. Disfarçava. Quando a professora foi até a mesa de outro aluno, ele retirou o bilhete das pernas e o colocou debaixo da prova. A professora foi atender outro aluno no fundo da sala e ele desdobrou-o papel uma vez, desdobrou a segunda, a terceira... – Para quê tantas dobras! – Pensava Júlio.

- Júlio me entregue esse papel agora! – Sentenciou a professora.

- Pa-pa-pel? – Gaguejou.

- Esse aqui. – Disse a professora puxando o papel debaixo da prova.

- Não é cola não professora.

- Sei, sei. Isso custará caro para o senhor.

Com a cara fechada, a professora começou a desdobrar o bilhete. Desdobrou uma, duas, três vezes... – Bem dobrado. – Pensou, também, a professora. Quando desdobrou a última parte, leu o que estava escrito: “Estou na cantina, te conto tudo lá”.

5 comentários:

Gabriela Galvão disse...

Bem feito! (Q bonitinho, isso!)

Anônimo disse...

Os meus alunos são assim, parabéns pelo conto !

Andre Borges

as viciadas disse...

aaaaaaaaaaaaaaaaai e agora eu quero saber o segredo de thalita...

hahahahahahaha

nossa, dei muita gargalhada lendo.

T"alita dava cavalos de pau com a carteira tentando estacionar atrás de Júlio, não teve sorte, pois Rodolfo, melhor amigo de Júlio, já tinha estacionado."


'ta namorando ta namorando'

hahahaha

ai, muito bom. mesmo.

Beijone, L.

Sutra disse...

Bela escrita
Depois de um tempo, regressei :)

Beijo doce*

Paula disse...

ai ai ...rs
""crianças"...rs