Assim que pisou com o pé esquerdo no bar, Altamiro notou a estranha faceta do português, que passava, intensamente, o pano sujo no balcão. Olhou ao redor e presenciou, na maior tranquilidade, o exato momento em que a esposa selou um beijo na boca de outro homem. Altamiro encostou-se ao balcão, onde sempre estacionava a barriga, respirou fundo e pediu uma cachaça. Prontamente o português, desatarraxou a torneirinha do pequeno barril e encheu meio copo americano com a malvada. Virou de uma vez só e aterrissou com força o copo no balcão, Noêmia, a esposa, avistou-o.
- Amor! Você está aí? Esse daqui é meu primo, o Jorge. Lembra que já falei dele pra você?
Jorge era um sujeito estranho, vestia uma jaqueta de couro preta, carregava um imenso bigode e, entre os espessos pêlos da face, cobrindo toda a boca, Abelardo notou que havia batom, na cor vermelho sangue. A esposa, rapidamente, pegou o marido pelas mãos e levou até a mesa onde estavam.
- Primo, esse é o Altamiro, meu marido.
- Altamiro, esse é o Jorge.
Jorge levantou, sacou um pente do bolso de trás da calça jeans e passou vagarosamente pelo cabelo, antes de apertar a mão de Altamiro.
- Estou aformoseado com a sua preclara presença.
Altamiro desvencilhou-se das mãos do homem e, ressabiado, se afastou.
- Um segundo. – Disse indo de encontro ao balcão, deixando os dois para trás.
O português que estava a todo o momento observando a conversa, afoito, chamou Altamiro até ao fundo do bar.
- Estão se beijando desde a hora que chegaram. – Disse aos sussurros, com o sotaque mais carregado que o normal.
Altamiro passou a mão no rosto, tentando disfarçar a angústia.
- Eu escutei tudo. – Disse o gajo esbaforido. – Chamou-te de afeminado e de outro palavrão que não escutei muito bem.
O português, totalmente desnorteado, pegou uma escada velha de madeira e encostou-a numa estante. Subiu com dificuldade os degraus e esticou a mão para alcançar um pequeno frasco. Desceu devagar e entregou para Altamiro.
- O que é isso?
- É veneno de rato. – Exclamou o português. – Está fora da validade há anos. Duas gotinhas no copo e é tiro e queda. Acabe com isso de uma vez por todas.
- Endoideceu? – Perguntou assustado.
- Um homem estranho, beija sua mulher na boca e ainda te xinga dentro do bar que você frequenta há anos. Vira homem, homem. Dá um jeito nisso.
Altamiro enfiou o veneno no bolso e quando se aproximava da mesa da mulher, ela novamente beijou o homem. Dessa vez, justificou:
- Amor, o beijo na boca é comum na nossa família, sabia? Todo mundo faz isso. É uma forma de expressar carinho.
Altamiro fervilhou por dentro, aturava a infidelidade da mulher, mas a mentira ele não suportava.
- Um segundo, vou fumar um cigarro.
Minava de suor quando atravessou a porta do bar, caminhou de encontro à esquina e depois de exatos quinze passos, chamou um moleque de rua.
- Quer ganhar um trocado? – Perguntou trêmulo.
O menino assentiu com a cabeça e Altamiro explicou:
- Você deve pingar duas gotas no copo do homem de bigode que está sentado ao lado de uma mulher, entendeu? Mas eles não podem perceber.
O menino com um sorriso largo no rosto, pegou o frasco, o dinheiro e entrou no bar. O português notou o frasco que o menino tentava esconder embaixo da camisa e, na esperteza, chamou a atenção do casal.
- Vocês podem me dar uma pequena ajuda aqui? Segure isso aqui. – Disse o português entregando alguns pacotes na mão dos dois. – Vou pegar a escada lá no fundo do bar. Tenho que guardar isso na última prateleira.
O moleque, com bastante agilidade, esgueirou-se entre as mesas até chegar ao objetivo. Tirou o frasco da cintura, abriu e ficou na dúvida em qual dos dois copos seria. Não demorou muito pra perceber que um dos copos estava sujo de batom, não pestanejou e desperdiçou duas gotas no outro, o limpo. Noêmia, depois de uma breve golada, instantaneamente, espatifou-se no chão, contorceu e espumou até à morte.
A primeira pessoa que Altamiro encontrou no enterro da mulher foi Jorge. Estava com a mesma jaqueta preta e dessa vez com um batom menos chamativo. Fingiu que não o viu e foi até a beirada do caixão e, por alguns segundos, o recém viúvo, ficou contemplando o pálido rosto da mulher. Logo perdeu a atenção quando viu uma leva de parentes chegando ao local, todos foram recebidos com beijos na boca.
Altamiro sentiu um peso forte na consciência, precisava beber alguma coisa, resolveu sair e encontrar alguma birosca na redondeza. Foi quando a sogra segurou-o pelo braço e apresentou-o como o viúvo aos parentes que acabaram de chegar.
- Esse é Asdrúbal, o tio de Noêmia. – Apresentou a sogra. – Essa é Carlota, a tia. Esse é o Juninho, priminho caçula e essa é Manoela, a prima.
Altamiro olhou a jovem dos pés a cabeça. A moça tinha imensos e resistentes seios que escapavam salientes num apertado decote, a camisa, curta, deixava à mostra os pêlos dourados da barriga, a calça estava apertada e delineava todas as dobras das duas grossas coxas. Ele não resistiu, assim que ela deu-lhe os devidos pêsames, Altamiro pegou-a pelo pescoço e a beijou na boca.
- Mesmo com Noêmia não estando mais conosco, considero-me parte dessa família e não deixo a tradição de lado. – Disse forçando uma voz embargada.
Novamente ele agarrou a moça, dessa vez com mais força, e deu-lhe um longo e demorado beijo.
- Obrigado mesmo. - Concluiu.


2 comentários:
ai ai... se minha família possuísse essa tradição, eu estaria é fodido!
Se acabou c beijo na boca, acabou bem!
Postar um comentário