9.9.09

O colecionador

Otacílio era um homem solitário, sem vícios, não tinha amigos e nem fazia questão. A notícia que deveria sair do apartamento onde morava chegou depressa e de repente. O dono, um italiano de sotaque carregado, avisou pelo telefone que a filha ficaria com o apartamento, depois que casasse. Otacílio morava a dez anos naquele lugar, conhecia os porteiros e todos os moradores, apesar de nunca ter falado com ninguém. Assim que colocou o telefone no gancho, abatido, tratou de encaixotar as coisas.

O caminhão de mudança, depois de três dias de arrumação, estacionou em frente ao prédio e os ajudantes ficaram perplexos quando viram as caixas arrumadas, simetricamente, uma ao lado da outra na sala do apartamento. Em cada uma estava escrito o que continha, onde ficava no velho apartamento e onde ficaria no novo. Os móveis todos desmontados e com os respectivos parafusos ensacados. Foi o trabalho mais fácil que fizeram. Horas depois, o caminhão, com toda a mudança, estacionou na porta do novo prédio.

Otacílio, com a indicação do antigo locador, encontrou facilmente outro lar, num canto mais ofuscado da cidade. Entrou no elevador, de grade corrediça, apertou o número dois e, rangendo, ele subiu vagarosamente. Enfiou a chave com dificuldade no miolo e, forçando com os pés, abriu-a. Era bem menor que o outro, mas por uma rápida análise viu que os móveis caberiam e ficariam postos como no antigo apartamento. Foi até a janela veneziana, puxou as duas portas de vidro para dentro e emburrou as de madeira para fora. Antes de olhar a vista, notou que o parapeito estava cheio de palitos de fósforo. Com as mãos, jogou todos para baixo. Em três dias, arrumou tudo e se tivesse amigos, eles achariam frequentar o mesmo apartamento.

Na primeira noite, teve dificuldade em dormir, portas batiam toda hora, havia movimentação constante no elevador e o botequim, da esquina, só fechou às cinco da manhã. Foi exatamente na hora em que se levantou e abriu a janela da sala, que notou, novamente, um monte de palitos queimados sobre o parapeito. Com o auxilio do espanador, Otacílio empurrou todos os palitos para fora.

Durante toda a semana, ele esbarrava com os palitos, mas como era recente no prédio, não quis reclamar, deixou de lado, para evitar brigas com a nova vizinhança. Depois, pensando melhor, parou de jogar os palitos para fora, começou a guardá-los numa caixinha, assim não incomodaria o vizinho debaixo e arrecadaria provas para uma futura reclamação.

Todos o dias ele juntava em média dez palitos, queria descobrir o mentecapto que arremessava os fósforos, não pra bater boca, mas apenas analisar a cara da pessoa e descobrir se é de pau ou de bobo. Quando entrava no elevador e encontrava com alguém, examinava a dos pés à cabeça.

Num sábado, pela manhã, quando abriu a caixinha para colocar mais palitos, notou que quase não cabiam mais. Foi até ao centro e, com sucesso, encontrou uma loja repleta de caixas, de todos os tipos e tamanhos. Comprou a mais parecida, aproveitou e levou duas pequenas trancas, com cadeados. Já em casa, pegou a chave de fenda na caixa de ferramentas e aparafusou a tranca nas duas caixas, fechou a que estava cheia, guardou-a na estante e colocou a nova, aberta, no lugar da antiga.

Domingo pela manhã, acordou e, como sempre fazia, abriu a janela. Estranhamente não havia nenhum palito. Passou a tarde inteira, sentado no sofá da sala, olhando para a janela aberta, mas nenhum palito caía. Segunda, Otacílio acordou bem mais cedo que o habitual e correu para abrir a janela, mas, para a tristeza dele, nada se empoleirava no parapeito.

Ficou aflito, foi até a cozinha e interfonou para a portaria, com um total estranhamento do porteiro, atrás de explicações. Foi avisado que o morador de cima havia mudado e que o apartamento ficaria um bom tempo sem locatário, pois entraria em reforma. Sentiu um vazio, imenso, dentro do vazio espesso que já vivia, pegou o jornal, abriu na página de imóveis e tachou alguns anúncios com a caneta. No outro dia, ligou para todos os corretores e marcou as visitas.

A primeira coisa que Otacílio fazia, assim que entrava no apartamento, era abrir a janela e, numa breve análise, virava para o corretor dizendo que não havia gostado, nem fazia questão dos outros cômodos. Passou por vários imóveis e utilizou repetidos corretores, alguns, de antemão, não queriam nem atendê-lo.

Otacílio partiu sozinho para os confins da cidade. Depois de duas horas dentro do ônibus, chegou num bairro esquecido pelo mundo, onde parou de frente a um imenso conjunto de prédios. A maioria dos apartamentos tinham janelas quebradas, varais de roupas dependurados, paredes pichadas por vândalos e um odor horrível, que ele sentiu assim que desceu do ônibus.

Caminhou até um homem, vestido com maus trapos, que varria uma imensidão interminável de sujeira e perguntou se haviam apartamentos vagos. O homem se identificou como o zelador do local e disse, com um sorriso sem dentes, que todos os apartamentos do térreo estavam vagos. Otacílio não precisou perguntar o porquê, pois assim que entrou no apartamento e abriu a janela deparou-se com os palitos de fósforos, bitucas de cigarros, cotonetes, preservativos, absorventes e outras coisas que não conseguiu identificar, tudo sobre o parapeito.

- Quando vence o aluguel? – Perguntou, instantaneamente, ao velho zelador.

6 comentários:

Déa disse...

Acho que seria amiga do Otacílio. Gosto da mistura de T.O.C., niilsmo e toda a sorte de excentricidades com as quais o construiu. Gosto muito muito muito da abundância de vírgulas também.
Um beijo!

Andre Borges disse...

Muito legal !

Paula disse...

Esse niilismo me lembrou a maçonaria... Ai ai ...

Aninha Leme disse...

o cara tinha TOC e ainda por cima era meio doido.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
gostei da história, vc tem uma grande imaginação!

beijossssssss

Mari disse...

ele era completamento louco.
meu amigo escritor eu adorei.
Bjo grande

Roberta Mattoso disse...

Meu contista predileto, só uma pergunta: Ouvidor ou Sambaune??heheehehe
Mil bjoks!