8.2.10

CARNAVAL 2010

Sexta-feira de carnaval...

Área nobre, verde, branca e grená.

Poderíamos até começar o carnaval em Santa Teresa no Bloco das Carmelitas, mas infelizmente o bloco sai às 15 horas e muitos de nós, foliões, trabalhamos nesse horário, mas os vagabundos de plantão podem se deliciar, caso queiram.

O ba-la-co-ba-co começa às 19 horas, em Laranjeiras, no Concentra mais não sai ali na Rua Ipyranga, o bloco fica estacionado.

Depois dessa primeira levada de cerveja e marchinhas de carnaval, cairemos pra Lapa, além dos sambas decorrentes do local, terão os blocos Afroreggae – não gosto muito - e Boêmios da Lapa. Precisamos não utilizar da força total nesse dia, pois sábado o bicho vai pegar.


Sábado de carnaval...

Terra de barbudos e rasteirinhas.

Exatamente às 7 horas da manhã começa a concentração do Céu na Terra em Santa Teresa, o bloco é muito bom, eu garanto. Indico a tomarem o café da manhã – reforçado – no Boteco do Gomes, ali na Rua Gomes Freire, beber uma cerveja gelada, e, dali mesmo, embarcar numa enferrujada kombi até o Curvelo, lá em cima, quase colando no sol.

“Num fala português não?”

Depois de muito álcool, sol e protetor solar, nós descansaremos as pernas num singelo almoço no primeiro restaurante – vazio – que encontrarmos, geralmente, o que está sempre vazio é o restaurante Tailandês, então, não se assustem se o garçom entregar um prato de gafanhoto ao alho e óleo na sua mesa.

Às 15 horas surge o Bloco Aconteceu que escapole no Largo dos Guimarães, ainda em Santa Teresa. Cerveja, cerveja – vodka – e cervejas.


Domingo de carnaval...

Suruba, todo mundo está com todo mundo.

Domingo, bem cedo, às 9 horas começa o Cordão do Boitatá. Esse bloco – um dos melhores – possui um repertório variado e quase 100% dos foliões aparecem de fantasia. Então, molecadinha, todos fantasiados e bem embriagados.

Almoçaremos na Lapa, ao som de samba, com chope. Às 15 horas sob os famosos Arcos da Lapa entraremos no Bloco Ratos da Lapa, ainda estaremos em recomposição, por isso, pouca vodka durante esse percurso.

Deixaremos os ratos e os arcos quando o motorista do 497 ou 434 – Lei Seca – aparecer. Minutos depois desceremos, novamente, às 17 horas, em Laranjeiras, no bloco É do Pandeiro, que é ótimo.

Às 20 horas voltaremos pra Lapa – se conseguirmos – e encararemos os Acadêmicos dos Arcos até as 21 horas quando o Cacique de Ramos adentrar a avenida, no caso, a Rio Branco.


Segunda-feira de carnaval...

Dores nas batatas.

Às 10 horas voltaremos à pacata, porém enérgica, Santa Teresa, atrás do bloco Songoro Cosongo. Almocemos outros gafanhotos e, logo-logo, às 15 horas acontecerá o Aconteceu novamente. Aproveitando o calor, rolará o esquentado bloco Aquecimento Global, às 16 horas e Maracutaia, às 17 horas, tudo em Santa. Depois – cansados e embriagados - desceremos até a Lapa, onde dispersaremos.


Terça-feira de carnaval...

Quase explodindo.

Terá o bloco Carmelitas, às 9 da manhã, mas acho que não aguentaremos subir, novamente, a ladeira, por isso, indico o bloco Bagunça meu Coreto, em Laranjeiras, às 11 horas, pois logo depois, ali na área, bem no Largo do Machado, acontecerá o bloco Largo do Machado, mas não largo do copo, com concentração às 15 horas. Às 20 horas, depois de muito descanso e hidratação, partiremos pro centro no famoso bloco Bafo da Onça que tropeçará no bloco do Cacique de Ramos. – Haja álcool.

OBS: Aceito ideias para novos roteiros, portanto a programação está sujeita a modificações.

Dica para aproveitar - sem erros - o carnaval:

Encha o rabo de cerveja!



26.1.10

Semeando chifres

O céu, negro, estava banhado de estrelas naquela sexta-feira. Os ponteiros do relógio, em forma de maçã verde, marcavam nove e quarenta. Clarissa, de camisola, assistia à televisão e pintava as unhas dos pés com o esmalte na cor rosa-chiclete. Uma revista de moda feminina mantinha-se aberta sobre a cama. De alguma forma, ela conseguia prestar a atenção no filme legendado e ler uma matéria sobre luzes no cabelo. Na rádio tocava às dez mais do dia. De repente, energicamente, pegou o celular e caçou o número de Eduardo, o garoto que ela estava afim.

Eduardo, de cueca samba-canção, jogava videogame quando o telefone vibrou em cima do criado-mudo. Olhou no visor, suou frio e pensou em não atender, mas era a garota que ele estava gostando. Respirou fundo e atendeu.

- Alô?

- Eduardo?

- Oi Clarissa, tudo bem?

- Tudo ótimo, e com você?

- Um pouco bêbado. – Risos.

- Bêbado? Já? – Risos.

- Uma vodka antes de sair não faz mal a ninguém.

- Vai sair? Pra onde?

- Dar umas voltas na Lapa, sem compromisso. E você, ficará em casa em plena sexta-feira?

Emudeceu.

- Nada, também darei umas voltinhas, mas... Eduardo, eu tenho que desligar, o interfone está tocando, deve ser minhas amigas. Beijos

- Tudo bem, beijos e até.

Desligou.

- Mãinhêêê! Traz meu leite? – Resmungou Eduardo com voz de coitado.

- Vem buscar. – Retrucaram lá da cozinha.

- Ah, Mãe. Você disse que não posso sair do quarto.

- Você não pode é sair de casa. Uma semana sem pisar na rua, do colégio pra casa. Está com sorte de jogar videogame. Não merecia.

- Ah mãe!

- Nem a e nem b, Carlos Eduardo.

Clarissa, com o telefone espremido entre o ombro e a orelha, remexia as roupas do armário enquanto falava com a amiga Fernanda.

- Não importa por que resolvi ir de última hora, me diga logo qual roupa você vai. – Dizia Clarissa jogando várias roupas em cima da cama. - É melhor ir de rasteirinha, não acha? Vou me acabar hoje.

- Explica o motivo, pois você me disse, toda apaixonadinha, que não sairia hoje. – Insistiu a amiga Fernanda.

- É que o corno acendeu o estopim.

24.1.10

Feitio

Quando chegava a casa, ela pendurava a bolsa na cadeira, retirava as sandálias sem a ajuda das mãos, acendia as cinco velas do candelabro e sentava na banqueta do piano. Como todos os dias, os ágeis e flexíveis dedos exploravam todo o piano soando uma bossa nova. Fechava os olhos e se deixava levar. Sentia recarregar as forças e era, sempre, o momento mais perfeito do dia. Na ponta dos pés, ela ia até ao bar. Depois de três cubos de gelo, caprichava o copo com uísque, deixava-o descer pela garganta e rebuscava o paladar a senti-lo mais. Abriu a cigarrilha com as mãos de unhas impecavelmente feitas, acendeu o cigarro e tragou-o com tanto prazer que, como ao piano, deixou os olhos fecharem.
Com o cigarro preso entre os fartos lábios, ela corria os dedos pelo teclado, levando, lentamente, um bolero qualquer. Entornou ainda mais, da garrafa, no copo, prendeu os cabelos e colocou o vinil de Nelson Gonçalves. Arriscou passos, tendo, como parceiro, o copo com uísque. Como, tinha tremoços na geladeira, serviu-se numa pequena bandeja, precisava de sal. Aumentou o som e o tamanho da dose no copo. Ligou o gás do chuveiro e se despiu. Apenas de calcinha, se deixou ao vício e acendeu outro cigarro. Dançou a música inteira e, quando caminhava até o banheiro, o celular apitou duas vezes. Era ele, dizendo que tinha dois convites para uma boate. Ela desligou o celular, o gás e aumentou, ainda mais, o som.

22.1.10

Pieno d’amore

Foi através do sorriso,
E, ainda, nele estou.
Depois, evidentemente, do resto.
E, ainda, nele estou.

Guardei cada traço,
E, ainda, nele estou.
Em detalhes únicos,
E, ainda, neles estou.

E apoiei-me nos olhos,
E, ainda, neles estou.
Gloriosamente belos.
E, ainda, neles estarei.

21.1.10

O resgate do goleiro Silas

As tábuas corridas equilibradas numa estrutura de ferro, soldadas pelo lanterneiro do bairro, já se encontravam empenadas com tanta gente acomodada. Não havia espaço para mais ninguém. Era um domingo e o sol rachava com força total.
Em campo, a rivalidade dos times: Rua de Cima contra Esquina do Vilmar. A grande e esperada final. A grama era escassa, misturada com capim e arranha-gatos assassinos. Além dos adversários, os jogadores eram obrigados a driblar também as bostas de vaca espalhadas por todo o gramado. Os uniformes, dos dois times, eram surrados e tinham os números costurados nas costas, uns já se encontravam até dependurados. Chuteiras, tênis e chapas de papelão servindo de caneleira. Alguns jogadores se aqueciam, esticando as pernas de várias maneiras e outros viravam, freneticamente, copos e mais copos de cerveja.

Do lado esquerdo do campo, após a disputa da moeda, o time do técnico Vilmar, inteiramente reunido, discutia as últimas táticas. Do outro lado do campo, o lado da sombra, o time do técnico Jorjão, desfalcado, esperava impacientemente o goleiro Silas.

- Como assim ele não vem? – Gritou o técnico Jorjão.

- Problemas com a patroa dele. – Indagou Carlinhos, o capitão do time. – Acho que terminaram.

Jorjão ficou vermelho, parecia um tomate modificado geneticamente.

- Hoje é a grande final, temos que buscá-lo. Carlinhos, você é o capitão, vá resgatá-lo.

O capitão Carlinhos escolheu alguns companheiros e partiram de chuteiras no pé para a casa do goleiro. Logo que atravessaram o portão do pequeno estádio, Jorjão explicou ao juiz o motivo do atraso e a notícia logo se espalhou por todo o campo, desde o gandula até o último torcedor.

Carlinhos socou a porta da casa de Silas.

- Quem incomoda? – Respondeu uma voz moribunda lá de dentro.

- Silas? É o Carlinhos.

- Não posso falar agora.

- Precisamos conversar.

Depois de implorarem bastante, Silas abriu a porta. A cara de choro era visível na faceta de traços grossos de Silas. Era um sujeito grande e forte, mas possuía um coração de criança e era um dos poucos que usava da boa educação naquela área.

- Esqueceu do jogo, Silas? – Perguntou Juninho, o cabeça de área.

- Minha mulher me largou, fugiu com outro, eu nunca desconfiei de nada. – Respondeu desabando em lágrimas.

- Você é um homem bom, logo aparece outra mulher.

- O problema é a fama.

- Que fama cara?

- A fama de corno no bairro, todo mundo ficará sabendo, se já não sabem.

- Vamos logo pro jogo.

- Não!

- Você deve ir e mostrar que além de corno você é um ótimo goleiro. – Intrometeu Paulo, o xucro zagueiro.

- Que isso Paulo? Corno?

- Não foi isso que ele quis dizer. – Ajeitou Carlinhos. – Disse que o povo esquecerá disso se você defender todas as bolas da partida. Somente nós sabemos disso e ninguém contará, não é verdade gente?

Todos concordaram balançando a cabeça.


Depois de um copo de água com açúcar e muito sentimentalismo, Silas aceitou, pegou as luvas e acompanhou os amigos de casa até o campo, com o peito cheio de garra. No caminho as pessoas da rua se entreolhavam trocando olhares irônicos. Assim que Silas colocou os pés no gramado a algazarra da torcida cessou, todos os olhares eram pra ele. Carlinhos fez de tudo para que ele não percebesse, mas a torcida adversária iniciou um coro:

- Corno, Corno, Corno...

Carlinhos, rapidamente, chegou perto do goleiro e perguntou:

- Está escutando o grito da torcida?

Silas tombou a cabeça pro lado, com o intuito de escutar melhor e Carlinhos engatou:

- O calor é tanto, que estão gritando “forno”. Forno, forno, forno...

Silas sorriu, cantarolou “forno” e com o peito ainda cheio, se posicionou entre as traves para o início da partida, pois a esperança de melhorar a fama corria nas veias.

No início da partida, logo no primeiro lance, o meio campista do time de Valmir lançou a bola nos pés do lateral esquerdo, que, de peito de pé, enfiou a bola, certeira, na cabeça do atacante. Numa cabeçada perfeita, o número nove, jogou a bola no canto direito do gol, obrigando Silas a se esticar numa ponte, agarrando a pelota com as duas mãos. A torcida do Rua de Cima delirou, arregaçando aos berros, num coro de copa do mundo.

Silas rapidamente chutou a bola para frente e, num lance perfeito, Carlinhos lançou a bola nos pés do atacante, que logo, jogou a bola de um lado do zagueiro e pegou do outro, finalizando, perfeitamente, o famoso drible da vaca, chutando, a seguir, de três dedos, a bola, no ângulo direito do goleiro, fazendo um gol de placa.

A partida recomeçou com os times disputando heroicamente a bola no meio de campo. Os ataques depois do gol, em ambas as áreas, eram pouco frequentes. Os goleiros trabalhavam o básico e mantiveram o resultado empatado até o término da primeira etapa.

Após os quinze minutos no vestiário, estudando novas táticas, retornaram ao campo e o juiz, pontualmente, apitou o início do segundo tempo. A partida começou pesada, com muitas faltas, empurrões e cartões amarelos. Silas defendia magicamente todas as bolas chutadas pelos atacantes da Esquina do Vilmar, mas o clima ficou tenso aos quarenta e quatro minutos, quando, numa bola enfiada, o atacante, do Esquina do Valmir, ficou cara a cara com Silas. O atacante puxou pra esquerda, ajeitou a bola e quando armou para chutar foi travado bruscamente pelo zagueiro Paulo. Pênalti!

Ninguém tinha dúvidas, a penalidade era clara. Depois de muita confusão e expulsão do zagueiro, o batedor ajeitou a bola na marca e se afastou, quase chegando ao circulo do meio de campo.

Silas tentava manter a concentração na bola, mas ela se dissipava quando recordava da esposa. Lembrou da fama, do bairro e dos apelidos. Forçou a mente, voltou a pensar nos amigos e em ser o melhor goleiro. Abriu as mãos, após fazer a cruz, e ajeitou-se no meio do gol.

O juiz apitou, o batedor partiu como uma máquina de trem ao encontro da bola e, ignorantemente, a chutou, de bico. A bola espatifou na testa de Silas, saindo depois para fora de campo. O juiz apitou. Término da partida.

O goleiro foi carregado pelos outros jogadores, a torcida pulava e gritava sem parar. Silas foi ovacionado, se esqueceu da mulher, pensava somente na suada vitória e do heroísmo em campo. Até Valmir, o técnico adversário, falar ao pé do ouvido de Silas:

- Com o chifre, até eu catava!

19.1.10

Que parto que pariu!

- Estourou! – Gritou uma mulher barriguda, sentada, desleixadamente, na poltrona da sala.

O namorado deixou o prato espatifar no chão da cozinha e saiu correndo. Passou direto pela sala, procurou-a no quarto, banheiro, quintal e, desesperado, gritou:

- Cadê você?

- Aqui na sala, animal.

Assim que chegou perto, Eliana, a namorada, notou a estranha respiração de Carlos.

- Quem deve fazer essa respiração sou eu e não você.

Ele nem deu ouvidos. Correu pro quarto bebê, inteiramente decorado, e tratou de fazer a mala. Pegou fralda, vestido, pente, chupeta e mamadeira, mas foi cortado por outro grito.

- Estourou novamente? – Dessa vez ele, desesperado, também gritou e apareceu esbaforido na sala.

- Está achando que são fogos de artifícios? – Rebateu a mulher, já sem paciência.

- Já volto, estou arrumando a mala. – Acrescentou ele, voltando, novamente, pro quarto.

- Ô mala! – Berrou ela. – A mala já está pronta há séculos. Pega o carro e vamos embora. Eu aguento tranquilamente essa dor, o difícil é aguentar você. Anda rápido.

O carro, praticamente zero, não pegava, ou Carlos, o quase-pai, não conseguia liga-lo de tanto nervosismo. Chamaram um táxi. Ele retirou a mala do bagageiro do carro, colocou a mala no táxi, entrou e pediu para o taxista seguir para o hospital. Eliana berrou, o taxista deu ré, ele saiu, abriu a porta traseira e deixou, agora, que ela entrasse.

A barriguda, logo que chegou ao hospital, foi levada para os preparativos da operação e Carlos, quase relaxado, aproveitou para realizar algumas ligações. Suava frio quando uma enfermeira se aproximou e lhe entregou os pertences da namorada. Depois de avisar aos amigos e parentes, ele se sentou numa poltrona, procurando relaxar totalmente, e ficou brincando com uma aliança que estava entre os pertences.

Nervoso, pois presenciaria todo o parto, ele enfiava, incessantemente, a aliança no dedinho mindinho, passava-a de uma mão a outra e a jogava pra cima, até que percebeu algo escrito na parte interna da aliança. Com dificuldade, ele leu. Havia um nome de outro homem escrito.

Carlos sentiu um forte aperto no peito, inicialmente, um ciúme doentio tomou-o por dentro, tentou lembrar quem seria Guilherme, - Um ex-namorado? - mas nada surgia em mente. O rosto que estava pálido até certo momento, tornou-se rubro. Virou três copos de água gelada, raciocinou bem e, esfriando a cabeça, chegou à conclusão que deixaria as perguntas pra mais tarde, esperaria uns trinta dias, até o neném deixar de ser recém-nascido, e depois tiraria satisfações com a namorada. Decidido, ele colocou a máscara e entrou na sala.

Eliana estava estirada na maca, com as pernas arreganhadas e tendo grandes contrações. Quando forçava, com a ajuda dos médicos, o rebento para fora, notou a presença do namorado, sentiu-se segura, mas a felicidade logo se foi quando percebeu a cara estranha de Carlos. Viu que ele olhava, de momento em momento, para as mãos. Míope, ela forçou bastante a vista para compreender que aquele objeto, dourado e brilhante, na mão do namorado, tratava-se de uma aliança.

Ela não acreditou que Carlos a pediria em casamento em pleno parto. Teve vontade de se levantar e esbofetear a cara dele, só pra ver se um pouco de noção entrava na cabeça do namorado. Tentou dizer algo, mas não saia nada entre os dentes travados pela dor, somente carregados e fortes urros escapavam. Ele notou a raiva que ela o fitava e ficou estarrecido na porta, não saía e nem entrava. Quando, novamente uma força o animou a entrar, Carlos foi puxado pela enfermeira para a ante-sala.

- Desculpe-me senhor. – Disse a enfermeira um pouco constrangida. – Mas aquelas coisas que lhe entreguei são de outra paciente.

17.1.10

Furacão

Era verão, um sábado. Acordou com o barulho do caminhão de lixo e, quase simultaneamente, bateram na porta, olhou no relógio, eram dez e meia, a ressaca reinava. Assim que a abriu, Janete entrou esbaforida com várias sacolas de compras penduradas no ombro. João nem sequer prestou ajuda, foi para a cozinha, colocou água pra ferver e acendeu um cigarro. Janete não parava de falar lá na sala, criou coragem e voltou.

- Fumando de barriga vazia? – Disse ela, sem querer uma resposta.

João não respondeu e sentou-se no único lugar que não havia bolsas apoiadas.

- Fiz umas comprinhas.

- Comprinhas?

- É. Comprei umas coisas pra você e, também, pra mim. Óbvio.

- Pra mim?

- Isso. Você está precisando de camisas novas, as suas estão muito velhas.

- Olha essa aqui, ô, linda. – Disse Janete, animadíssima.

- Rosa?

- Isto não é rosa, bobo, é lilás.

- Lilás?

- Ficará ótima com a sua calça xadrez.

- Eu não tenho calça xadrez.

- Agora tem. – Rebateu ela enfiando a mão numa das sacolas.

- Janete, meu estilo não é esse. Isso não combina comigo.

- E você alguma vez na vida já teve algum estilo? Pega isso e experimenta.

- Vou acordar primeiro.

- Anda logo, já estou perdendo a paciência.

- Então passe o café pra mim. – Ordenou antes de ir para o quarto.

Voltou vestido com a calça xadrez e a blusa lilás.

- Está um gatinho, mas você tem que cortar esse cabelo, está sem corte. Horrível.

Havia duas semanas que João havia cortado o cabelo, mas não quis se aprofundar no assunto. Pegou uma xícara, desperdiçou o café nela e, no primeiro gole, engasgou.

- Você não adoçou?

- João Guilherme, açúcar faz mal, muito mal. Coloque o adoçante.

- Aqui em casa não tem adoçante.

- Tem sim, na segunda porta do armário.

Foi até a cozinha e colocou três colheres cheias de açúcar, sem que ela percebesse. Quando retornou a sala, foi surpreendido por uma espirrada de perfume, levou um susto.

- Olha que delícia esse cheiro, comprei pra você. É feminino, mas eu adoro.

- Feminino?

- Isso mesmo, não tem problema algum. O meu, você já disse que gosta muito do meu, não é? Então, o meu é masculino.

- Eu gosto de perfume em você, não em mim.

- Agora... – Começou ela com as mãos pra trás e um sorriso imenso na face. – Tenho uma surpresa pra você.

- Outra?

- Feche os olhos.

- Era tudo que eu queria. Fechar meus olhos até as duas da tarde.

- Pode abrir.

- Que chapéu é esse?

- Gostou? Não é chapéu, é boina.

- Não, não combinou com você.

- Também não é pra mim idiota, é pra você.

- Pra mim? – Perguntou abismado.

- Experimenta!

- Não.

Ela o olhou de cara feia. Ele obedeceu.

- Ficou lindo, me dá um beijo agora. – Beijaram-se. – Amor, eu tenho que ir ao salão fazer as unhas. Vá cortar seu cabelo e tome aqui o seu cartão de crédito.

- Meu cartão?

Janete nem respondeu, deixou apenas duas das sacolas e levou todo o resto.