A portinhola do sótão bateu com força no terraço quente do edifício. Com muita dificuldade, Edgar, quarenta e poucos anos de idade, forçou os braços e ergueu o corpo até se sentar no batente. Após ficar de pé, fechou a portinhola com um vergalhão enferrujado. Era janeiro e o sol rachava, quando Edgar, com os olhos cheios de lágrimas, caminhou até a beirada do edifício. Teve uma vertigem quando sentiu a altura em que estava.
Depois que a esposa, na noite anterior, assumiu o romance com o amante, e pediu o divórcio, Edgar decidiu que não precisava mais viver. O edifício onde trabalhava seria o lugar ideal, pois possuía um terraço inacessível a funcionários e ninguém o interromperia.
Transpirando bastante, ele retirou a camisa e, com o asseio cotidiano de sempre, a dobrou perfeitamente, apoiando-a em seguida no único local limpo do terraço. Posicionou-se novamente na extremidade do edifício, decidiu que contaria até três e depois se jogaria. Foi disperso por um bip do celular. Retirou-o do bolso, abriu o flip e notou que a bateria estava prestes a acabar. – Esqueci de recarregar. – Pensou em voz alta, antes de apoiá-lo em cima da camisa. Decidido, voltou ao objetivo, respirou fundo e quando arqueou os joelhos para pular, flashes da vida reacenderam na mente de Edgar.
Lembrou, primeiramente, da filha, quando pequena. Dos dentinhos de leite caindo, da língua, presa, se soltando, do colégio, dos amigos, dos namorados, tantos deles, e, recentemente, da faculdade e a anunciação do noivado. Edgar estava convicto que a filha estava criada, por ele, e pronta para o mundo. Respirou fundo, tratou de se concentrar na contagem para o salto, mas as lembranças chegavam sem bater. Veio à tona a aposentaria no final do ano - a tão sonhada aposentadoria - o dinheiro pra casa de veraneio que estava guardado e que ele iria, enfim, descansar, ser um marajá. Mas não se importou, deixaria, sem dó, todos os bens pra filha. A ponta do sapato do pé direito atravessou a fronteira do prédio e pairou, por pouco tempo, no nada. Voltou a posto quando lembrou do churrasco que já havia marcado, com todos os parentes e conhecidos, para o final do ano, em comemoração a aposentadoria, mas também se danou para isso. - Que se explodam. - Fechou os olhos, sentiu o vento, estranhamente, fresco cortar a pele, bambeou o corpo pra frente, mas outra lembrança o puxou pra trás. Pegou o celular e ligou pra filha.
- Fê? Tudo bem? Tá em casa?
- Sim, mas tô muito atrasada e não posso falar agora. Tô saindo.
- Que bom! Aproveita e desce com esses cascos de cerveja que estão embaixo do tanque e entrega pro Jorge pra mim, fiquei de entregar, mas esqueci.
- Nem a pau, pai! Estou muito atrasada, depois você entrega. Beijinhos. Tenho que desligar.
Edgar enfiou o telefone no bolso, vestiu a blusa, arrancou o vergalhão que cerrava a portinhola e foi embora. Quando entrou em casa, se deparou com a esposa chorando, copiosamente, no sofá da sala. As malas, prontas, estavam empilhadas num canto.
- Chorando por quê?
- De raiva! Com muita raiva de você! Estou, aqui, toda sofrendo e parece que nada está acontecendo com você. E todos os nossos anos de casado?
- Você não se decidiu? Pra que tenho que sofrer minha querida. A vida continua.
- Você nunca gostou de mim. Nunca mesmo, sei disso.
- Não podemos discutir relação, não a temos mais, estou certo? – Edgar rebateu antes de caminhar até a área.
A esposa se levantou e enxugou as lágrimas quando viu o marido carregando uma quantidade imensa de cascos de cervejas. Fechou a cara e engoliu o choro antes de começar a berrar.
- Vai beber? Está comemorando o nosso término? Que felicidade é essa a sua!
Edgar, mesmo um pouco assustado, começou a rir.
- Não é isso, Marcela.
- Está rindo? Pode rir da minha cara! Pode mesmo! Sou uma boba, uma trouxa. Quem é a outra? Fala logo o nome da vagabunda.
- Não existe ninguém, não crie coisas na sua cabecinha.
Ela tentou detê-lo, ele se esquivou e saiu de casa. No caminho sentiu a pele arrepiar e pensou na bobeira em que estava prestes a fazer. Espontaneamente, fez o sinal da cruz antes de alcançar, com os olhos, o bar. O local, como sempre, estava lotado. Após os cumprimentos e as, repentinas, brincadeiras maliciosas, Edgar encontrou o balcão e apoiou os cascos.
- Quantas? – Disse Jorge, vigorosamente, no outro lado do balcão.
- Quero dez, bem geladas.
Voltou, minutos depois, com as garrafas de cervejas e alguns salgadinhos ensacados. Distribuiu os cascos pelo freezer e geladeira, desperdiçou amendoins numa cumbuca qualquer e se sentou na poltrona de sempre, ao lado da esposa. Ela conservava uma cara de desacreditada.
- Posso ligar o som? Se incomodaria?
- Edgar, Edgar...
- Um pouco de Nelson Gonçalves para os nossos ouvidos.
- Ainda te mato! – Esbravejou ela, mordendo os lábios.
Ele deu-se de ombros, encheu a taça até o cume e a virou numa única golada. Depois de secar a primeira garrafa, Edgar fez questão de levá-la até a área e guardá-la, com cautela, embaixo do tanque, no particular seguro de vida.