11.3.10

Elas

Quando parou em frente ao espelho e observou o próprio reflexo, Bárbara resgatou, pela primeira vez, o passado que ela havia deixado, de lado, há muito tempo. Tentou se esquivar, mas a outra Bárbara que a olhava, penetrantemente, não deixou. Ficou estática, a única coisa que se movimentava eram as densas gotas de lágrimas que já corriam, sem cessar, pela face pálida.

O coração batia diferente, o corpo quente, do banho que havia acabado de tomar, rapidamente se tornou gélido. Não pode se enganar, a Bárbara do reflexo carregava uma outra aparência, parecia calma, tinha um semblante puro e um olhar agradável, Bárbara a reconheceu de primeira, pois era ela, ou o que foi dela.

Observou cada detalhe da mulher no reflexo, a íris era viva, a pele rubra, não havia olheiras e duas covinhas saltitavam prevendo um sorriso, a contemporânea Bárbara não pode evitar. Os olhos vieram a brilhar, a bochecha, que magicamente parecia maquiada de rosa, se contraiu e as modestas covinhas apareceram totalmente. Um lindo sorriso imergiu no rosto de Bárbara, mas foi por pouco tempo, o sorriso, brevemente puro, se transformou numa gargalhada demente e as lágrimas recomeçaram a descer. Bárbara espatifou o espelho com uma das mãos e pode notar, no que restou do espelho, que as inseparáveis olheiras ainda estavam lá.


10.3.10

O sem assunto bom de papo

Anselmo sempre andava sozinho e frequentava, somente, as biroscas mais sórdidas da cidade. Era muito querido na redondeza e mesmo pelos porres catastróficos que tomava, era sempre bem tratado pelos grosseiros e lendários donos de botequins. Até o mal humorado português, herdeiro de um boteco centenário do centro, pendurava, sem protestar, as cachaças do sujeito.

Não era de papo, mas respondia educadamente se lhe perguntassem algo. Algumas pessoas o achavam mudo, outras pensavam que ele só sabia falar duas palavras, as cores: branca e amarela, da cachaça. Conversava assuntos velhacos, uma vez ou outra, quando lhe interessavam, mas nunca se estendia. Quando alguém o entediava com consequentes perguntas, ele enfiava um grande torresmo na boca e mastigava como se ruminasse o pedaço gorduroso de carne. E quase sempre, o sujeito, que insistia em perguntar, respondia a si próprio as perguntas, transformando aquela conversa de botequim em um auto-conhecimento. Por esse motivo era sempre requisitado como conselheiro, mesmo sem aconselhar nada, pelos sofridos boêmios da noite. Os resignados, no final da pseudo-análise, sempre agradeciam Anselmo pagando um ou dois tragos de alguma bebida.

A reputação, de bom moço, surgia dessa forma; o sujeito do monólogo da noite anterior, sem muitas lembranças em mente, no dia seguinte, sóbrio, perpetuava Anselmo como o sábio das palavras e espalhava a todos. A fama, rapidamente, se alastrou para os bairros vizinhos, logo as noites da rua principal do bairro ficaram abarrotadas de gente. Todo mundo atrás de conselhos e, até mesmo, tirar uma foto com o famoso Anselmo. Filas eram formadas na porta do botequim onde ele estava e flashes estouravam por todos os lados, uma balbúrdia incontrolável afetava todos os dias da vida de Anselmo.

O assédio durou, exatamente, duas semanas, pois num sábado, pela manhã, o limite da sanidade de Anselmo foi atingido. Ele espatifou o copo de cachaça no chão, rasgou toda a roupa, arrancou chumaços de cabelo e berrou, berrou muito, antes de cair, com a boca espumando, no meio da rua.

Sozinho, no quarto de número sete, no Hospício da cidade, Anselmo, claramente sadio, carregava um sorriso na cara sob um silêncio alpino. Feliz, era a primeira vez que escutava o som do vento.

Depois de oito meses, absolutamente só, um paciente, com idênticas faculdades patológicas de Anselmo deu entrada ao hospício, o presidente não teve escolha, encaminhou o homem ao quarto sete. Todos os funcionários rodearam a porta do quarto, os curiosos queriam presenciar tal, inoportuno, momento, mas nada aconteceu. O novo homem, de nome Messias, que também não era de papo, nem cumprimentou Anselmo quando entrou. E o silêncio foi mútuo. Quando os espectadores desistiriam de vigiar a situação, soou algo de dentro do quarto. - Esquentou, não é? – A voz, quase incubada, era de Anselmo, puxando um vago assunto. Todos ficaram ansiosos esperando uma resposta, mas não houve, pois lá de dentro, Messias, ainda desambientado, com o sorriso estampado na cara, consentia, apenas, com a cabeça. Feliz, ali, o som fazia barulho.

22.2.10

Crepúsculo com uísque.

Celina notou, de primeira, quando o homem alto, de cabelos dourados e olhos acinzentados adentrou no botequim. Elegantemente, ele sentou-se à mesa mais reservada, bem aos fundos do boteco, onde uma luz, branca, já fraca, piscava a caminho do fim. O garçom, claramente, deixou de servir os clientes que chegaram antes, para levar, prontamente, uma garrafa de uísque ao homem. Ela supôs que o homem poderia ser um cliente antigo, por isso o empenho do garçom em servi-lo.

Mesmo ao lado do marido, Celina não conseguia tirar os olhos do homem, fitava cada movimento que ele fazia. O garçom desperdiçou o uísque no copo, sem gelo, do homem e ela observou que, mesmo olhando com um desejo ardente para o líquido, ele não encostava as mãos no copo. Os olhares dela foram, brevemente, interrompidos quando o marido deu-lhe um solavanco.

- O que cê tá olhando? – Perguntou Gilson, agarrando-a com força pelo braço.

- Nada. – Disse, ainda olhando, de soslaio, o homem.

Era a segunda noite em que saiam juntos e Gilson havia apostado naquela relação, mas naquele momento sentiu tudo se perder, novamente, no ar. Sem paciência para reconciliações, levantou, retirou algumas notas da carteira, jogou-as na mesa e se despediu apenas com um mero adeus, Celina nem o respondeu, aliás, nem viu quando o recém caso ultrapassou as portas do bar e sumiu na noite. Continuava com os olhos submersos no fundo do bar, engatados nos traços perfeitos daquele homem.

Um vento traiçoeiro levou as notas, deixadas por Gilson, para o chão imundo do bar, Celina nem ligou, pois, naquele instante, o distinto homem, a convidava a mesa, mesmo sem dizer uma palavra sequer ou compor gesto algum, Celina sentiu que era a companhia dela que ele invocava. Levantou-se e, adestradamente, caminhou até a mesa dos fundos.

Ele fez as honras e a cadeira, inexplicavelmente, se arrastou, pra trás, sem a ajuda de ninguém, Celina não se importou com o estranho fenômeno e sentou-se com um sorriso canalha na cara. O homem a serviu e ela virou a metade do copo, logo, ele, preencheu o espaço vazio, do copo, com outra dose.
- Você ainda não bebeu nem um gole do seu uísque.

- Só o cheiro me satisfaz, lembro do meu glorioso e longínquo passado.

- Então, se der um gole, você embarcará inteiramente no seu passado, já tentou?

- Não, não. Prefiro sangue.

- Sangue? Também adoro comida ao molho pardo, uma delícia! – Enriqueceu ela, virando completamente o copo. – Uma galinha ao molho pardo combina com uísque assim como Tom combina com Jobim.

Ele riu.

- Toma uma dose. – Insistiu ela.

Ele negou com a cabeça.

- Garçom. – Berrou ela, demonstrando embriaguez. – Trás uma garrafa cheia pra cá.
Depois da garrafa posta na mesa, ela encheu o copo do homem e, novamente, persistiu, que ele bebesse.

- Não posso.

- Por quê?

- Sou um vampiro.

Ela danou-se a rir desesperadamente.

- É sério, agora, por exemplo, através da indução, vou fazer você derrubar o copo de uísque na sua blusa.

Ela agachou de tanto rir.

- Desse jeito é outro líquido que sairá no meio das minhas pernas. Vou ao banheiro e já volto.

O dito vampiro ficou atordoado, não entendeu o porquê da indução não funcionar com aquela mulher. Tinha feito o ato com o namorado dela e havia funcionado perfeitamente, pois ele, sem pestanejar, sumiu no mapa. Os pensamentos dele foram golpeados quando ela, ao se sentar-se à mesa, derrubou o copo com uísque inteiro no colo dele.

Ela tornou a rir.

- Acho que você induziu erradamente. – Ironizou ela.

- Nunca brinque com um vampiro. Posso te comer viva. - Retrucou antes de colocar os grandes caninos pra fora.

- É meu querido, pode extrair esses caninos de leite, pois só menstruo no início do mês. Aqui é igual a dia de pagamento, deu dia 5, ela cai. – Disse a gargalhadas.

- Pare, eu ordeno.

- Você passa pó de arroz? Metrossexual? Que corte de cabelo é esse? Pica atrás e arrepia na frente?

Ele não aguentou, pegou a garrafa e a virou no gargalo. Depois disso, se deram, otimamente bem, até, um pouco antes, do amanhecer.

11.2.10

En-CASCO-etado

A portinhola do sótão bateu com força no terraço quente do edifício. Com muita dificuldade, Edgar, quarenta e poucos anos de idade, forçou os braços e ergueu o corpo até se sentar no batente. Após ficar de pé, fechou a portinhola com um vergalhão enferrujado. Era janeiro e o sol rachava, quando Edgar, com os olhos cheios de lágrimas, caminhou até a beirada do edifício. Teve uma vertigem quando sentiu a altura em que estava.

Depois que a esposa, na noite anterior, assumiu o romance com o amante, e pediu o divórcio, Edgar decidiu que não precisava mais viver. O edifício onde trabalhava seria o lugar ideal, pois possuía um terraço inacessível a funcionários e ninguém o interromperia.

Transpirando bastante, ele retirou a camisa e, com o asseio cotidiano de sempre, a dobrou perfeitamente, apoiando-a em seguida no único local limpo do terraço. Posicionou-se novamente na extremidade do edifício, decidiu que contaria até três e depois se jogaria. Foi disperso por um bip do celular. Retirou-o do bolso, abriu o flip e notou que a bateria estava prestes a acabar. – Esqueci de recarregar. – Pensou em voz alta, antes de apoiá-lo em cima da camisa. Decidido, voltou ao objetivo, respirou fundo e quando arqueou os joelhos para pular, flashes da vida reacenderam na mente de Edgar.

Lembrou, primeiramente, da filha, quando pequena. Dos dentinhos de leite caindo, da língua, presa, se soltando, do colégio, dos amigos, dos namorados, tantos deles, e, recentemente, da faculdade e a anunciação do noivado. Edgar estava convicto que a filha estava criada, por ele, e pronta para o mundo. Respirou fundo, tratou de se concentrar na contagem para o salto, mas as lembranças chegavam sem bater. Veio à tona a aposentaria no final do ano - a tão sonhada aposentadoria - o dinheiro pra casa de veraneio que estava guardado e que ele iria, enfim, descansar, ser um marajá. Mas não se importou, deixaria, sem dó, todos os bens pra filha. A ponta do sapato do pé direito atravessou a fronteira do prédio e pairou, por pouco tempo, no nada. Voltou a posto quando lembrou do churrasco que já havia marcado, com todos os parentes e conhecidos, para o final do ano, em comemoração a aposentadoria, mas também se danou para isso. - Que se explodam. - Fechou os olhos, sentiu o vento, estranhamente, fresco cortar a pele, bambeou o corpo pra frente, mas outra lembrança o puxou pra trás. Pegou o celular e ligou pra filha.

- Fê? Tudo bem? Tá em casa?

- Sim, mas tô muito atrasada e não posso falar agora. Tô saindo.

- Que bom! Aproveita e desce com esses cascos de cerveja que estão embaixo do tanque e entrega pro Jorge pra mim, fiquei de entregar, mas esqueci.

- Nem a pau, pai! Estou muito atrasada, depois você entrega. Beijinhos. Tenho que desligar.

Edgar enfiou o telefone no bolso, vestiu a blusa, arrancou o vergalhão que cerrava a portinhola e foi embora. Quando entrou em casa, se deparou com a esposa chorando, copiosamente, no sofá da sala. As malas, prontas, estavam empilhadas num canto.

- Chorando por quê?

- De raiva! Com muita raiva de você! Estou, aqui, toda sofrendo e parece que nada está acontecendo com você. E todos os nossos anos de casado?

- Você não se decidiu? Pra que tenho que sofrer minha querida. A vida continua.

- Você nunca gostou de mim. Nunca mesmo, sei disso.

- Não podemos discutir relação, não a temos mais, estou certo? – Edgar rebateu antes de caminhar até a área.

A esposa se levantou e enxugou as lágrimas quando viu o marido carregando uma quantidade imensa de cascos de cervejas. Fechou a cara e engoliu o choro antes de começar a berrar.

- Vai beber? Está comemorando o nosso término? Que felicidade é essa a sua!

Edgar, mesmo um pouco assustado, começou a rir.

- Não é isso, Marcela.

- Está rindo? Pode rir da minha cara! Pode mesmo! Sou uma boba, uma trouxa. Quem é a outra? Fala logo o nome da vagabunda.

- Não existe ninguém, não crie coisas na sua cabecinha.

Ela tentou detê-lo, ele se esquivou e saiu de casa. No caminho sentiu a pele arrepiar e pensou na bobeira em que estava prestes a fazer. Espontaneamente, fez o sinal da cruz antes de alcançar, com os olhos, o bar. O local, como sempre, estava lotado. Após os cumprimentos e as, repentinas, brincadeiras maliciosas, Edgar encontrou o balcão e apoiou os cascos.

- Quantas? – Disse Jorge, vigorosamente, no outro lado do balcão.

- Quero dez, bem geladas.

Voltou, minutos depois, com as garrafas de cervejas e alguns salgadinhos ensacados. Distribuiu os cascos pelo freezer e geladeira, desperdiçou amendoins numa cumbuca qualquer e se sentou na poltrona de sempre, ao lado da esposa. Ela conservava uma cara de desacreditada.

- Posso ligar o som? Se incomodaria?

- Edgar, Edgar...

- Um pouco de Nelson Gonçalves para os nossos ouvidos.

- Ainda te mato! – Esbravejou ela, mordendo os lábios.

Ele deu-se de ombros, encheu a taça até o cume e a virou numa única golada. Depois de secar a primeira garrafa, Edgar fez questão de levá-la até a área e guardá-la, com cautela, embaixo do tanque, no particular seguro de vida.

8.2.10

CARNAVAL 2010

Sexta-feira de carnaval...

Área nobre, verde, branca e grená.

Poderíamos até começar o carnaval em Santa Teresa no Bloco das Carmelitas, mas infelizmente o bloco sai às 15 horas e muitos de nós, foliões, trabalhamos nesse horário, mas os vagabundos de plantão podem se deliciar, caso queiram.

O ba-la-co-ba-co começa às 19 horas, em Laranjeiras, no Concentra mais não sai ali na Rua Ipyranga, o bloco fica estacionado.

Depois dessa primeira levada de cerveja e marchinhas de carnaval, cairemos pra Lapa, além dos sambas decorrentes do local, terão os blocos Afroreggae – não gosto muito - e Boêmios da Lapa. Precisamos não utilizar da força total nesse dia, pois sábado o bicho vai pegar.


Sábado de carnaval...

Terra de barbudos e rasteirinhas.

Exatamente às 7 horas da manhã começa a concentração do Céu na Terra em Santa Teresa, o bloco é muito bom, eu garanto. Indico a tomarem o café da manhã – reforçado – no Boteco do Gomes, ali na Rua Gomes Freire, beber uma cerveja gelada, e, dali mesmo, embarcar numa enferrujada kombi até o Curvelo, lá em cima, quase colando no sol.

“Num fala português não?”

Depois de muito álcool, sol e protetor solar, nós descansaremos as pernas num singelo almoço no primeiro restaurante – vazio – que encontrarmos, geralmente, o que está sempre vazio é o restaurante Tailandês, então, não se assustem se o garçom entregar um prato de gafanhoto ao alho e óleo na sua mesa.

Às 15 horas surge o Bloco Aconteceu que escapole no Largo dos Guimarães, ainda em Santa Teresa. Cerveja, cerveja – vodka – e cervejas.


Domingo de carnaval...

Suruba, todo mundo está com todo mundo.

Domingo, bem cedo, às 9 horas começa o Cordão do Boitatá. Esse bloco – um dos melhores – possui um repertório variado e quase 100% dos foliões aparecem de fantasia. Então, molecadinha, todos fantasiados e bem embriagados.

Almoçaremos na Lapa, ao som de samba, com chope. Às 15 horas sob os famosos Arcos da Lapa entraremos no Bloco Ratos da Lapa, ainda estaremos em recomposição, por isso, pouca vodka durante esse percurso.

Deixaremos os ratos e os arcos quando o motorista do 497 ou 434 – Lei Seca – aparecer. Minutos depois desceremos, novamente, às 17 horas, em Laranjeiras, no bloco É do Pandeiro, que é ótimo.

Às 20 horas voltaremos pra Lapa – se conseguirmos – e encararemos os Acadêmicos dos Arcos até as 21 horas quando o Cacique de Ramos adentrar a avenida, no caso, a Rio Branco.


Segunda-feira de carnaval...

Dores nas batatas.

Às 10 horas voltaremos à pacata, porém enérgica, Santa Teresa, atrás do bloco Songoro Cosongo. Almocemos outros gafanhotos e, logo-logo, às 15 horas acontecerá o Aconteceu novamente. Aproveitando o calor, rolará o esquentado bloco Aquecimento Global, às 16 horas e Maracutaia, às 17 horas, tudo em Santa. Depois – cansados e embriagados - desceremos até a Lapa, onde dispersaremos.


Terça-feira de carnaval...

Quase explodindo.

Terá o bloco Carmelitas, às 9 da manhã, mas acho que não aguentaremos subir, novamente, a ladeira, por isso, indico o bloco Bagunça meu Coreto, em Laranjeiras, às 11 horas, pois logo depois, ali na área, bem no Largo do Machado, acontecerá o bloco Largo do Machado, mas não largo do copo, com concentração às 15 horas. Às 20 horas, depois de muito descanso e hidratação, partiremos pro centro no famoso bloco Bafo da Onça que tropeçará no bloco do Cacique de Ramos. – Haja álcool.

OBS: Aceito ideias para novos roteiros, portanto a programação está sujeita a modificações.

Dica para aproveitar - sem erros - o carnaval:

Encha o rabo de cerveja!



26.1.10

Semeando chifres

O céu, negro, estava banhado de estrelas naquela sexta-feira. Os ponteiros do relógio, em forma de maçã verde, marcavam nove e quarenta. Clarissa, de camisola, assistia à televisão e pintava as unhas dos pés com o esmalte na cor rosa-chiclete. Uma revista de moda feminina mantinha-se aberta sobre a cama. De alguma forma, ela conseguia prestar a atenção no filme legendado e ler uma matéria sobre luzes no cabelo. Na rádio tocava às dez mais do dia. De repente, energicamente, pegou o celular e caçou o número de Eduardo, o garoto que ela estava afim.

Eduardo, de cueca samba-canção, jogava videogame quando o telefone vibrou em cima do criado-mudo. Olhou no visor, suou frio e pensou em não atender, mas era a garota que ele estava gostando. Respirou fundo e atendeu.

- Alô?

- Eduardo?

- Oi Clarissa, tudo bem?

- Tudo ótimo, e com você?

- Um pouco bêbado. – Risos.

- Bêbado? Já? – Risos.

- Uma vodka antes de sair não faz mal a ninguém.

- Vai sair? Pra onde?

- Dar umas voltas na Lapa, sem compromisso. E você, ficará em casa em plena sexta-feira?

Emudeceu.

- Nada, também darei umas voltinhas, mas... Eduardo, eu tenho que desligar, o interfone está tocando, deve ser minhas amigas. Beijos

- Tudo bem, beijos e até.

Desligou.

- Mãinhêêê! Traz meu leite? – Resmungou Eduardo com voz de coitado.

- Vem buscar. – Retrucaram lá da cozinha.

- Ah, Mãe. Você disse que não posso sair do quarto.

- Você não pode é sair de casa. Uma semana sem pisar na rua, do colégio pra casa. Está com sorte de jogar videogame. Não merecia.

- Ah mãe!

- Nem a e nem b, Carlos Eduardo.

Clarissa, com o telefone espremido entre o ombro e a orelha, remexia as roupas do armário enquanto falava com a amiga Fernanda.

- Não importa por que resolvi ir de última hora, me diga logo qual roupa você vai. – Dizia Clarissa jogando várias roupas em cima da cama. - É melhor ir de rasteirinha, não acha? Vou me acabar hoje.

- Explica o motivo, pois você me disse, toda apaixonadinha, que não sairia hoje. – Insistiu a amiga Fernanda.

- É que o corno acendeu o estopim.

24.1.10

Feitio

Quando chegava a casa, ela pendurava a bolsa na cadeira, retirava as sandálias sem a ajuda das mãos, acendia as cinco velas do candelabro e sentava na banqueta do piano. Como todos os dias, os ágeis e flexíveis dedos exploravam todo o piano soando uma bossa nova. Fechava os olhos e se deixava levar. Sentia recarregar as forças e era, sempre, o momento mais perfeito do dia. Na ponta dos pés, ela ia até ao bar. Depois de três cubos de gelo, caprichava o copo com uísque, deixava-o descer pela garganta e rebuscava o paladar a senti-lo mais. Abriu a cigarrilha com as mãos de unhas impecavelmente feitas, acendeu o cigarro e tragou-o com tanto prazer que, como ao piano, deixou os olhos fecharem.
Com o cigarro preso entre os fartos lábios, ela corria os dedos pelo teclado, levando, lentamente, um bolero qualquer. Entornou ainda mais, da garrafa, no copo, prendeu os cabelos e colocou o vinil de Nelson Gonçalves. Arriscou passos, tendo, como parceiro, o copo com uísque. Como, tinha tremoços na geladeira, serviu-se numa pequena bandeja, precisava de sal. Aumentou o som e o tamanho da dose no copo. Ligou o gás do chuveiro e se despiu. Apenas de calcinha, se deixou ao vício e acendeu outro cigarro. Dançou a música inteira e, quando caminhava até o banheiro, o celular apitou duas vezes. Era ele, dizendo que tinha dois convites para uma boate. Ela desligou o celular, o gás e aumentou, ainda mais, o som.